quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sala de cinema da Torre: “Deus não está morto”


“Deus não está morto” é um filme americano de 2014, estrelado por Shane Harper, Kevin Sorbo e David A.R. White, escrito por Hunter Dennis, Chuck Konzelman e Cary Solomon, e dirigido por Harold Cronk. O enredo central é o seguinte: o calouro Josh (Shane Harper) é um cristão convicto que se inscreve para a aula de filosofia do professor Radisson (Kevin Sorbo) que parte do pressuposto em suas aulas que Deus está morto. Josh não aceita e então Radisson o desafia a defender a existência de Deus contra os argumentos filosóficos e científicos nas próximas três aulas. Assisti ao filme no ano passado esperando um grande debate de ideias sobre a existência de Deus, mas o filme não passa de um grande spam gospel. É tão spam que ele pede que você mande um SMS para todos os seus contatos, dizendo “Deus não está morto”, assim como todos os spams funcionam. (E fico feliz por não ter recebido nenhum SMS dos meus contatos; vocês estão de parabéns, amigos!)

Quero deixar claro que não quero discutir a minha opinião sobre a existência ou morte de Deus; quero discutir os argumentos filosóficos e “científicos” do filme. O filme é uma propaganda tão baixa que pode ser percebidas pelos personagens: todos os ateus são mesquinhos e babacas, enquanto todos os cristãos são puros, sofredores e resignados. Mas isso não vem ao caso.

O primeiro problema filosófico do filme é a forma como o debate entre Josh e Radisson é conduzido. O debate funciona como um julgamento da existência de Deus, onde Deus é o réu e o seu crime é existir. Como em qualquer julgamento sério, o réu é inocente até que se prove o contrário. Nesse caso, Deus é inocente de existir. Assim, a promotoria deve provar que Deus existe e a defesa não precisa provar nada. Porque, por essa lógica filosófica, Deus não existe, até que se prove ao contrário. Em Ciência, essa lógica também funciona; partimos do pressuposto que nada funciona (um novo tratamento, uma nova droga, etc...) até que se prove o contrário. Isso é a chamada hipótese nula, e a Ciência se baseia em testar experimentalmente as hipóteses nulas. Por exemplo, se alguém diz que a fosfoetanolamina cura o câncer e eu não acredito (hipótese nula), ele deve provar que o composto funciona. Ele não pode me pedir que eu prove que ela não funciona porque isso é como provar que alguém é inocente; é, por lógica, impossível. Isso é uma falácia chamada de inversão do ônus da prova. Se alguém diz que Deus existe e eu não acredito (hipótese nula), ele deve provar que Deus existe e não inverter o ônus da prova e me pedir que prove que Deus não existe. O problema é que todo o filme é conduzido com a inversão do ônus da prova, onde Radisson tenta provar que Deus não existe (hipótese nula), o que é impossível, e Josh defende a existência de Deus. Assim nenhum dos argumentos do filme pode ser levado em consideração, na forma como foram conduzidos.

Passando para o debate: Josh e Radisson duelam três vezes, discutindo a origem do Universo, a evolução das espécies e a moral.

Para defender a existência de Deus, Josh explica a origem do Universo usando o Argumento Cosmológico de Kalam, comparando o BigBang com o que está escrito no livro bíblico da Gênesis, capítulo 1, versículo 3: “Deus disse: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita.”. Esse argumento consiste em um silogismo com duas premissas e uma conclusão: 1) Tudo que começa a existir tem uma causa; 2) O Universo começou a existir; 3) Logo, o Universo tem uma causa. Essa primeira causa seria Deus, o criador do Universo. Esse argumento tem três problemas. O primeiro é apontado no próprio filme, quando uma aluna cita Richard Dawkins e diz: “se Deus criou o Universo, quem criou Deus?”. Josh se esquiva com a chamada Falácia da Defesa Especial, e diz que o Deus cristão não precisa de uma causa para existir. Mas espera aí? Se a primeira premissa diz que TUDO tem uma causa, então ela está errada, já que Deus não precisa de uma causa. Logo esse argumento não funciona para provar que Deus existe.

Assim, o segundo problema é que o Argumento Cosmológico de Kalam precisa então partir do pressuposto que Deus já existia, e então tem uma lógica circular: o Argumento Cosmológico de Kalam prova a existência de Deus porque prova que ele existe. É como responder porque sim. E, como todo mundo sabe, porque sim não é resposta.

Por último, Josh usa a bíblia para explicar o BigBang, como eu disse antes, através do capítulo 1, versículo 3, do Gênesis. O problema é que no versículo 1 Deus já tinha criado a céu e terra (“No princípio, Deus criou os céus e a terra.”). Ou seja, na bíblia, o BigBang vem depois da criação dos planetas, o que não faz sentido. Assim, não existe suporte bíblico para o BigBang e para o Argumento Cosmológico de Kalam. Mas, mesmo com esses argumentos para refutar Josh definitivamente, Radisson prefere citar Stephen Hawking, usando da Fálacia da Autoridade, como se só porque Hawking disse deve ser verdade, como se estivéssemos em um bar vendo tucanos e petralhas discutindo. Só para na aula seguinte ser nocauteado por Josh.

A segunda aula foi sobre origem da vida e evolução, e eu confesso que tive que levantar para pegar um refrigerante na geladeira porque foi demais para mim. Antes de começar, Josh refuta o argumento anterior de Radisson, que usou Stephen Hawking, mostrando que o argumento cai na Falácia do Raciocínio Circular. E Radisson devolve outra vez com uma falácia de ataque pessoal, desmerecendo os argumentos de Josh por ele ser um simples calouro. (Como que esse cara virou professor de filosofia?)

Para mostrar que a origem da vida e a evolução dependem de Deus, Josh diz que Darwin não explica a origem da vida e que para ele a evolução não dá saltos. Porém, Josh diz que a Ciência mostra que a vida surgiu de repente, em uma explosão de vida, como descrito no capítulo 1, versículo 21, do Gênesis: “Deus criou os monstros marinhos e toda a multidão de seres vivos que enchem as águas, segundo a sua espécie, e todas as aves segundo a sua espécie. E Deus viu que isso era bom.”. A argumentação de Josh está, no mínimo, atrasada alguns anos.

Realmente, Darwin nunca tentou explicar a origem da vida. Por isso, o seu livro tem como título “Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida”, e não “Sobre a Origem da Vida”. Porém, existem teorias científicas, testadas experimentalmente, que explicam o surgimento da vida no meio ambiente da Terra primitiva sem a necessidade da intervenção de um agente externo. Em 1952, os cientistas americanos Stanley Miller e Harold Urey (Prêmio Nobel de Química de 1934) realizaram um experimento mostrando que é possível criar aminoácidos, que são compostos orgânicos essenciais para a vida, através da mistura de água aquecida, uma atmosfera rica em carbono e nitrogênio como esperado para a Terra primitiva, e descargas elétricas. Esses experimentos sustentam a Teoria da Sopa Primordial do russo Alexander Oparin e do inglês John Haldane, onde a Terra primitiva teria todas as condições necessárias para o surgimento inicial da vida. Na década de 1980, o cientista americano Walter Gilbert (Prêmio Nobel de Química de 1980) propôs outra teoria para a origem da vida, onde a vida teria começado através do surgimento de moléculas de RNA, que conseguem fazer reações químicas e controlar a sua própria replicação. Em 2009, pesquisadores conseguiram criar RNA a partir de substâncias não orgânicas, como no experimento de Miller-Urey, sustentando também a Teoria do Mundo do RNA. Isso não quer dizer que a Teoria da Sopa Primordial e do Mundo do RNA são excludentes; é bem possível que tanto o aparecimento de aminoácidos e proteínas, quanto de RNA tenham sido essenciais para o surgimento da vida na Terra. Mas Josh nem se quer menciona esses dados e escolhe a bíblia como única resposta. Radisson também engole o sapo e fica quieto.

Josh também diz que Darwin está errado porque ele afirmou que a evolução não dá saltos, mas que existem indícios científicos de que a vida teria surgido de repente, em um salto, contrariando a Teoria da Evolução pela Seleção Natural de Darwin. Mas vamos por partes.

Embora não fique claro no filme, parece que Josh se refere à chamada Explosão do Cambriano quando diz que a vida surgiu em um salto. Esse termo define o surgimento da grande maioria dos tipos de animais, registrados nos fósseis encontrados, durante o Período Cambriano, cerca de 542 milhões de anos atrás. Os críticos da Teoria da Evolução usam esse ponto para atacar a hipótese, já que todos os tipos de animais não poderiam ter evoluído em um período curto de tempo. Mas o problema é que o registro dos fósseis é falho; nem todas as formas de vidas ou todas as eras geológicas vão estar presentes no mesmo local, de forma fácil de ser interpretada. A vida pode parecer ter surgido repentinamente no Cambriano simplesmente porque não temos registro do que acontecia antes. E esse parece ser o caso. Nos últimos 20 anos, diversos cientistas encontraram registros fósseis de animais datados em eras pré-cambrianas, mostrando que a Explosão do Cambriano não foi tão significativa assim. Mas os críticos da Teoria da Evolução preferem ignorar esses novos dados.

Mas Josh está certo; Darwin em errou, pelo menos em parte, quando afirmou, no século XIX, que a evolução acontece em um passo constante. Mas isso não que dizer que a Teoria de Darwin está errada, porque ela também evoluiu nos últimos 150 anos. A Teoria da Síntese Evolutiva Moderna, proposta pelo inglês Sir Ronald Fisher e aprimorada por cientistas como Theodosius Dobzhansky e Ernst Mayr, junta a ideias de Seleção Natural de Darwin e genética de Mendel para explicar como as espécies surgem e evoluem. De acordo com a Teoria atual, a evolução não dá saltos, como disse Darwin, mas também não ocorre em ritmo constante. A evolução pode correr! Por exemplo, hoje é bem aceito que a evolução e diversificação dos mamíferos aumentaram sua velocidade de forma explosiva depois da extinção dos dinossauros. Com a morte desses grandes animais, diversos nichos ecológicos, ou seja, o estilo de vida desses animais, como o habitat, a posição na cadeia alimentar, etc, ficaram desocupados. E foram ocupados gradual, mas rapidamente, pelos mamíferos que se diversificavam. Assim, os grandes dinossauros herbívoros foram substituídos por elefantes e girafas, e os deinonicos pelos leões.

Em resumo, a Ciência explica a origem e evolução da vida sem precisar recorrer a forças externas em nenhum momento.

Na última aula, Josh aborda o tema da existência do mal e a moral. Para ele, o mal existe devido ao livre-arbítrio dos homens e não há justificativa para a moral humana sem a existência de Deus. Sem Deus, tudo é permitido. Bem, por esse argumento poderíamos esperar que todos os crentes fossem exemplos da moral, e os ateus fizessem qualquer coisa que quisessem. E é só olhar para a História ou ao nosso redor para perceber que não existe qualquer correlação entre crer em Deus e ser bom. Espanhóis e portugueses católicos mataram e escravizaram os nativos americanos; estadunidenses protestantes também dizimaram os nativos que viviam no país. Hitler era cristão e foi responsável pela morte de milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, regimes comunistas ateus, como o Soviético e o Khmer Vermelho do Camboja, foram responsáveis pelo massacre de milhões de pessoas na Ucrânia e no Sudeste Asiático. Hoje, pastores deputados envolvidos em corrupção estão longe de serem exemplos da moral cristã e terroristas do Estado Islâmico estão longe de serem exemplos da moral muçulmana.

Bem, se a bondade e a moral dependem de Deus e do medo das suas punições, elas não podem existir em animais ou bebês humanos, onde a ideia de Deus não existe. Mas há diversos exemplos contrários. Bebês com menos de um ano conseguem identificar ações boas ou ruins, e escolher entre elas. Existem vários casos documentados de chimpanzés selvagens que adotaram filhotes órfãos, mesmo sem ter relação sanguínea com eles.

O único sentido biológico da vida é a reprodução, onde todos os seres tentam ao máximo transmitir seus genes para as futuras gerações. Disso depende a continuidade das espécies e a evolução. Portanto, faz sentido que uma mãe defenda seu filho, já que ele carrega metade dos genes dela. Mas isso não explica porque (parte dos) humanos ajudam (ou simplesmente não jogam sujo para atrapalhar) pessoas desconhecidas e sem nenhum tipo de parentesco. De onde vem a moral humana?

Nos seus livros “Isto é Biologia: A Ciência do Mundo Vivo” e “O que é Evolução”, Ernst Mayr explica sua hipótese sobre o assunto (eu escrevi no blog sobre os dois livros, aqui e aqui). Para Mayr, o homem primitivo evoluiu em um ambiente difícil: em meio à savana africana, com muitos predadores e poucos lugares para se esconder, e tendo uma constituição física frágil e uma taxa reprodutiva baixa. Para se defender, esse homem contava apenas com a sua inteligência e capacidade de fabricar e manipular objetos e armas. Porém, aumentar o tamanho do grupo, juntando outros indivíduos além da família central, seria muito interessante para melhorar as chances do grupo sobreviver e passar seus genes para a próxima geração. Assim, defender indivíduos do seu grupo, mesmo que eles não tenham seu DNA, aumentaria suas próprias chances de viver por mais tempo. E se essa característica moral for definida geneticamente, ela se espalharia pela população humana e explicaria porque nos importamos com nossos semelhantes. 
 
Assim, a ciência explica a origem do Universo, da vida e da moral sem precisar de Deus. Os argumentos do filme em questão são fracos, e ele não serve para provar qualquer coisa sobre existência ou não de uma força superior. Mas serviu para encher os bolsos das produtoras: o filme arrecadou cerca de 60 milhões de dólares, 30 vezes o valor investido. Tanto que uma continuação estreou na semana passada, e já arrecadou sete milhões de dólares. Felizmente, dessa vez não há ciência envolvida, então eu não faço qualquer questão de ver.

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