quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Porque vão separar bebês macacos das suas mães (ou porque você não deve acreditar cegamente em abaixo-assinados apelativos)


Há algum tempo atrás, eu recebi por e-mail um convite para assinar um abaixo-assinado contra “torturas antiéticas e matanças de macacos bebês”. A campanha era assinada pela médica americana Dra. Ruth A. Decker (até onde conseguir apurar, pesquisadora aposentada da Universidade de Michigan, Estados Unidos) contra a pesquisa proposta pelo Dr. Ned H. Kalin, do Departamento de Psiquiatria, da Universidade de Wisconsin, também nos Estados Unidos. Segundo Dra. Decker, macacos recém-nascidos seriam separados das suas mães e colocados, presos, separados e sozinhos. Além disso, eles seriam estressados de diversas formas, como expostos a cobras vivas para tomarem sustos, furados com agulhas e submetidos à escaneamento cerebral. Obviamente, o abaixo-assinado viralizou e mais de meio milhão de pessoas assinaram o pedido. Pensei: “cara, em pleno século XXI, nenhuma Universidade, ainda mais americana, iria aprovar uma pesquisa cruel a esse ponto.” Pesquisei um pouco mais a fundo e vi que estava certo, enquanto o texto de Decker estava meio exagerado. Antes de ser aprovado, um projeto lá em Wisconsin é analisado, em média, por quatro horas; esse levou 170. Deve estar bem ajustado então, né?

A raiz do problema está na própria Universidade de Wisconsin, mas na década de 1960, com o psicólogo Harry F. Harlow. Harlow foi um dos maiores psicólogos do século passado e concentrou suas pesquisas nos efeitos psicológicos da separação da mãe e isolamento social. Mas, de fato, os seus métodos seriam considerados cruéis e suas pesquisas nunca poderiam ser realizadas hoje. Isso incluía separar filhotes das suas mães e substitui-las por algo como um bicho de pelúcia, ou manter os filhotes isolados de qualquer contato por até dois anos. O objetivo era avaliar a importância dos contatos sociais para a saúde mental. Mas, segundo consta, Dr. Harlow tinha bem pouco apreço pelos animais; ele teria dito: “A única coisa que me importa é se um macaco vai virar uma propriedade que eu possa publicar. Eu não tenho nenhum amor por eles. Nunca. Eu realmente não gosto de animais. Eu desprezo os gatos. Eu odeio cachorros. Como você pode gostar de macacos?”. Segundo a Dra. Decker, o Dr. Kalin queria repetir os antigos experimentos do Dr. Harlow. Mas isso não era verdade.

O projeto do Dr. Kalin tem como objetivo estudar como o cérebro funciona e reage a situações de ansiedade, um problema psicológico importante e que atinge uma parcela significativa da população. Seu pior desfecho, o suicídio, cresce rapidamente e já é umas das principais causas de morte de adolescentes no mundo desenvolvido. Dessa forma, os experimentos do Dr. Kalin não é uma repetição dos do Dr. Harlow; os objetivos são diferentes e os métodos também.

Não vai existir um confinamento solitário dos filhotes. Eles vão ser separados das mães sim, mas os filhotes vão crescer juntos para reduzir o impacto da separação. Esse é um procedimento bem comum em zoológicos e outros lugares onde animais são criados e quando as mães rejeitam seus filhotes, seja por estresse ou devido a um procedimento de cesariana.

Os animais também não vão ser aterrorizados ou torturados. O estresse e a ansiedade são causados por coisas simples. Por exemplo, uma pessoa estranha para os macacos entra na sala das gaiolas, não olha diretamente para eles, fica um tempo e sai. Só isso. É o equivalente a você encontrar um estranho na rua.

Mas e a cobra? Tem? Tem, mas como está escrito no abaixo-assinado parece que vão jogar a cobra na gaiola do macaco e deixar os dois brigando numa luta até a morte. Nem de longe é isso. Os pesquisadores vão deixar uma cobra em uma caixa de acrílico na sala de modo que os macacos possam vê-la, mas sem possibilidade de contato. Se você encontrar uma cobra na rua, você vai tomar um susto maior. Vocês lembram da moda de dar susto nos gatos com pepinos, que todo mundo filmava e achava muito engraçado? Isso é muito pior que a situação dos macacos no experimento.

Por fim, os pesquisadores vão coletar sangue dos animais para medida de hormônios e vão fazer o escaneamento do cérebro com eletrodos externos, um procedimento que não causa dor. Assim, em conclusão, o texto do abaixo-assinado é exagerado e apela muito mais para o sentimental do que para o racional, como tem se tornado comum pela Internet a fora. Aposto que boa parte do meio milhão de pessoas assinou o pedido sem ao menos procurar que são Dra. Decker, Dr. Kalin ou que foi Dr. Harlow (que tem uma página da Wikipédia para ele). Hoje, ao passar por qualquer informação pela rede, é essencial uma busca adicional, para confirmar o central dos fatos. Não acreditem em nada sem verificar antes (e eu incluo nisso os nossos textos também).

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