segunda-feira, 17 de abril de 2017

Nós não evoluímos para emagrecer


O quanto menos você precisa comer ou o quanto mais você precisar gastar de energia para emagrecer? Na década de 1950, o médico americano Max Wishnofsky usou as informações fisiológicas e bioquímicas disponíveis na época para tentar calcular isso. Com base no quanto de gordura temos guardado no tecido adiposo (que é o local do corpo onde armazenamos as gorduras) e no quanto de energia as gorduras tem, Wishnofsky chegou à fórmula de que para perder um quilo de gordura você precisar comer menos (ou gastar mais) 7.700 kcal. Assim, se você ficar um dia em jejum, você emagreceria mais ou menos 300 gramas (considerando que você coma normalmente o recomendado de 2.500 kcal). Ou se você substituir sua lata de refrigerante do almoço por água, você vai consumir 50 mil calorias a menos em um ano, e vai ficar 6,5 kg mais magro para o verão. Simples, não é?

Pena que não é verdade. A Regra de Wishnofsky considera o nosso organismo como algo estático, onde as calorias são gastas sempre na mesma velocidade. Porém, nosso corpo é capaz de se adaptar. Além disso, Wishnofsky considerou apenas a perda de gordura, mas nosso corpo também queima açúcar e proteína, que são menos “energéticos”.

Quando começamos um regime de emagrecimento, que pode ser uma dieta, exercícios ou os dois, nós perdemos peso em duas etapas. A primeira etapa é de emagrecimento rápido, mas dura apenas alguns dias. Nessa fase, nosso corpo gasta principalmente as suas reservas de açúcar e também proteínas. Na segunda etapa, começamos a queimar nossos estoques de gordura, mas o organismo se adapta para tentar economizar energia, em uma forma de compensar a redução de calorias disponíveis, e o emagrecimento é bem mais lento. Dessa forma, a Regra de Wishnofsky sempre calcula um emagrecimento muito maior que o real (e algumas pessoas podem ficar bem decepcionadas com o resultado final).

Essa adaptação é regulada pelo corpo, através de vários hormônios que são produzidos. Acredita-se que essa adaptação existe devido ao ambiente onde o homem primitivo evoluiu: um local ao precisávamos caçar nossa comida sempre (o que não era fácil) e fugir para não ser comida de outros animais, mais rápidos e mais fortes. Ficar muito tempo sem comer era comum, e corpo não podia se dar o luxo de jogar energia fora e ir emagrecendo. Então, um organismo capaz de se adaptar e economizar gordura em situações difíceis foi selecionado pela evolução. Em conclusão, evoluímos para engordar e não emagrecer.

Podemos medir isso? Podemos e isso já foi feito. Em 1994, pesquisadores canadenses estudaram irmãos gêmeos idênticos para analisar o papel dos genes na resposta ao exercício físico. Os irmãos andaram de bicicleta duas horas por dia, por 100 dias, com apenas noves dias de descanso. De fato, a resposta ao exercício tinha um fator genético, e irmãos tinham respostas mais parecidas entre si do que se comparados aos outras pessoas no estudo. No final do experimento, as pessoas tinham pressão sanguínea mais baixa e mais resistência respiratória. A perda de peso foi de, em média, cinco quilos, basicamente de gordura acumulada logo abaixo da pele. Porém, isso foi 22 % menos do que o esperado. Isso porque, no final do experimento, o gasto de energia era menor que no começo.

Em 2009, cientistas americanos estudaram o efeito do exercício sobre mulheres “gordinhas” durante a menopausa. Elas foram submetidas a três diferentes intensidades de exercício por seis meses. Sob o regime de exercício mais intenso, as mulheres só perderam metade do peso esperado. Essa compensação do metabolismo começou na décima semana de exercícios. Além disso, em nenhuma das intensidades, as mulheres tiveram uma redução de peso significativa. Mas todas tiveram uma redução do tamanho da cintura com exercício, independente do peso.

Uma dupla de pesquisadores canadenses analisou diversos resultados publicados, buscando investigar o efeito do exercício sobre pessoas “gordinhas”. Eles não conseguiram ver uma relação clara entre a quantidade de exercício feita e a perda de gordura. Mas os dados mostraram que exercícios intensos por períodos curtos levam a perda de peso, enquanto exercícios moderados por períodos longos não; mais um indício da adaptação do organismo, reduzindo o gasto de energia e o emagrecimento.

Porém, as coisas podem ser ainda mais complicadas. Além da compensação própria do metabolismo do organismo, as pessoas também pode fazer uma compensação comportamental. O que é isso? Pessoas fazendo exercícios podem acabar comendo mais do que deveriam, ou pessoas em dietas podem acabar fazendo menos atividades físicas. Em 2015, cientistas americanos estimaram que essa compensação comportamental pode reduzir o emagrecimento real em até metade, comparado com o emagrecimento esperado matematicamente.

Ou seja, força na dieta e na academia, que emagrecer é evolutivamente difícil!

Referências:

BOUCHARD, C. et al. The response to exercise with constant energy intake in identical twins. Obesity research, v. 2, n. 5, p. 400–410, 1994.

CHURCH, T. S. et al. Changes in weight, waist circumference and compensatory responses with different doses of exercise among sedentary, overweight postmenopausal women. PLoS ONE, v. 4, n. 2, p. e4515, 2009.

DHURANDHAR, E. J. et al. Predicting adult weight change in the real world: a systematic review and meta-analysis accounting for compensatory changes in energy intake or expenditure. International Journal of Obesity, v. 39, n. 8, p. 1181–1187, 2015.

ROSS, R.; JANSSEN, I. Physical activity, total and regional obesity: dose-response considerations. Medicine and Science in Sports and Exercise, v. 33, n. 6 Suppl, p. 521–529, 2001.

THOMAS, D. M. et al. Time to correctly predict the amount of weight loss with dieting. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 114, n. 6, p. 857–861, 2014.

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