sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

E se um gene fizesse você encher a cara?



Estamos saindo das comemorações de Ano Novo e é possível que você tenha passado pela seguinte situação: um tio que desde cedo já estava nos trabalhos da manguaça, chapou o melão, não conseguiu ver nem os fogos, começou 2014 com uma baita ressaca e prometeu (novamente) nunca mais beber. Mas você sabe que no início de 2015 a mesma coisa vai acontecer. Porém, e se ele não for culpado sozinho? E se, como as crianças que comem mal (sobre as quais escrevi anteriormente), um gene desse um empurrãozinho para a água que passarinho não bebe e o deixasse mais perto do alcoolismo? Nosso conhecimento sobre as bases genéticas, moleculares e neurobiológicas da dependência ao álcool é incompleto, mas pesquisadores britânicos deram um passo nessa direção e publicaram um trabalho na revista “Nature Communications” que ajuda a entender como funciona a preferência pelo consumo de álcool no cérebro.

Os pesquisadores usaram uma substância química para gerar mutações aleatórias no DNA de camundongos e depois analisaram os mais de mil filhotes gerados em relação à preferência em beber uma solução contendo 10 % de etanol (mais ou menos o equivalente à concentração de álcool no vinho) ao invés de beber água. Então, eles encontraram um tipo de camundongo mutante que prefere beber a solução com álcool quase 70 % das vezes, enquanto os normais bebem 25 % das vezes. Esse camundongo pinguço tem uma diferença em um gene que produz receptores de ácido gama-aminobutírico (ou GABA para os íntimos). O GABA é um composto usado para a comunicação entre os neurônios no cérebro, os nossos famosos neurotransmissores. E os receptores de GABA são proteínas presentes na membrana dos neurônios que sentem a presença desse neurotransmissor e passam a informação para a célula.

João Canabrava e Professor Raimundo (Fonte: extra.globo.com)
Com base nisso, os cientistas investigaram o camundongo João Canabrava mais a fundo. A mutação que ele carregava modificava apenas um aminoácido em uma proteína que tem quase 500. Esse animal era menor que os normais e as fêmeas eram totalmente estéreis, provavelmente devido a alterações cerebrais que controlam o desenvolvimento hormonal. Além disso, a preferência por álcool nesses camundongos não está relacionada com o sabor da bebida, já que ele não tem preferência por beber soluções com açúcar, adoçante ou amargas. E pior, esses animais ainda são mais fracos para bebida, tendo seus reflexos prejudicados com uma quantidade de álcool menor que os camundongos normais e demorando mais para se recuperar.

Quando os cientistas analisaram mais a fundo o cérebro desses camundongos viram que a mutação no receptor de GABA modificou a fisiologia cerebral, especialmente na região chamada nucleus accumbens, envolvida com o prazer, recompensa e aprendizado, assim como medo, agressividade, impulsividade e vícios. De acordo com os cientistas, essas alterações no cérebro causadas pela mutação no receptor de GABA podem explicar a preferência dos animais pelo álcool e fornece um novo alvo para estudos sobre o alcoolismo em humanos. Porém, é importante lembrar que esse estudo foi realizado apenas com camundongos e não se sabe se o mesmo tipo de mutação existe naturalmente em seres humanos, o que com certeza será alvo de futuros estudos.

Antes de terminar, gostaria de fazer uma ressalva que deveria ter feito antes: nós não somos exclusivamente determinados pelos genes, mas sim pela relação entre o que está presente no nosso genoma e o ambiente ao que somos expostos. Dessa forma, não existe um gene para obesidade, ou alcoolismo, ou diabetes (embora a mídia geral ainda não tenha entendido isso). Para a maior parte das características, incluindo as doenças complexas e com muitas variáveis, a presença de alguns genes em um ambiente favorável vai aumentar a probabilidade de ela ocorrer. Os genes não determinam, mas dão tendência.

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