quarta-feira, 17 de junho de 2015

Beijo de língua é cientificamente nojento!


O Dia dos Namorados foi na semana passada e vários casais apaixonados passaram a noite de sexta-feira juntos. Quem estava solteiro, aproveitou que era sexta para tentar se arranjar. Mas o fato é: um casal troca oito milhões de bactérias por segundo entre as suas línguas durante um beijo íntimo. Essa é uma das conclusões de um estudo publicado por cientistas holandeses (KORT et al., 2014). Mas por que esses pesquisadores foram estudar as bactérias da boca dos casais?

A ideia era estudar a microbiota, ou seja, o conjunto de bactérias presente nas bocas das pessoas e saber se a microbiota oral de casais que se beijam com mais frequência é mais parecida entre si o que em casais, digamos, não tão apaixonados. As bactérias da boca podem ser importantes para a saúde oral, e ter influência sobre os dentes, por exemplo. Além disso, o beijo (e a troca de saliva e microbiota) pode ter tido papel importante no desenvolvimento do comportamento de corte dos seres humanos, já que somos os únicos animais que fazemos isso.

Os cientistas identificaram os principais gêneros de bactérias presentes na boca dos voluntários e depois descobriram que os casais compartilham parte da microbiota presente na língua. Porém, as bactérias coletadas da parede interna das bochechas eram menos parecidas. Além disso, os casais que se beijavam com mais frequência tinham microbiotas mais parecidas, como os pesquisadores hipotetizaram.

Esse estudo pode parecer totalmente inútil, e da forma como os autores discutiram os resultados obtidos, ele realmente é. Porém, o papel da microbiota no metabolismo do nosso corpo sofreu grandes mudanças nos últimos anos. As bactérias passaram de simples hóspedes no nosso intestino para participantes em processos de doenças, como o diabetes. Um estudo publicado no ano passado mostrou que o uso de adoçantes artificiais pode aumentar os riscos do desenvolvimento de diabetes (SUEZ et al., 2014). De quem é a culpa? Mudanças no perfil da microbiota intestinal. E nesse ano, outro estudo descobriu uma correlação entre o consumo de emulsificantes, aditivos alimentares presente nas comidas industrializadas, e o diabetes e a obesidade (CHASSAING et al., 2015). Culpa de alterações nas bactérias no seu intestino.

Os cientistas holandeses mostraram agora que, embora a microbiota oral de casais seja parecida, não é fácil que as bactérias de uma boca se instalem na outra. Mas, e esse isso acontecer? E se a microbiota intestinal dos casais, que além de se beijarem, também vivem juntos, e assim, dividem talheres, banheiros e outras coisas, também for mais parecida? Em outras palavras, será que uma pessoa pode “contaminar” o seu par com a sua microbiota intestinal? Se for possível, será que um diabético pode transmitir sua doença? Ou uma pessoa saudável pode curar seu par doente? Muitas coisas a serem investigadas.

P.S.: Outra conclusão do trabalho, e que não tem a ver com as bactérias, foi a de que os homens mentem. (OK, isso pode parecer meio óbvio para algumas mulheres...) Os voluntários do estudo responderam a um questionário sobre a frequência com que beijavam o seu par. Os pesquisadores concluíram que a maioria dos homens (75 % deles) diziam que beijavam suas namoradas mais vezes do que elas diziam que eram beijadas. Um malandro chegou a dizer que beijava o seu par 50 vezes por dia, enquanto o par respondeu que era beijada apenas oito! O cara aumentou seu índice de beijos em quase cinco vezes! A mesma conclusão (homens mentem!) foi tirada em um estudo sobre comportamento sexual, onde os homens aumentam para cima o número de parceiras e frequência com que fazem sexo (SMITH, 1991). Cuidado com eles, meninas!

Referências

CHASSAING, B. et al. Dietary emulsifiers impact the mouse gut microbiota promoting colitis and metabolic syndrome. Nature, v. 519, n. 7541, p. 92–96, 2015.

KORT, R. et al. Shaping the oral microbiota through intimate kissing. Microbiome, v. 2, p. 41, 2014.

SMITH, T. W. Adult sexual behavior in 1989: number of partners, frequency of intercourse and risk of AIDS. Family Planning Perspectives, v. 23, n. 3, p. 102–107, 1991.

SUEZ, J. et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature, v. 514, n. 7521, p. 181–186, 17 set. 2014.

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