segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Mais oxitocina, por favor!

Amor = oxitocina? (Fonte: www.fakefake.com.br)
 
Possivelmente, você já ouviu falar ou leu em algum lugar sobre o “hormônio do amor”, a oxitocina. Tema bom para o Valentine’s Day, que passou não tem muito tempo. Uma busca rápida no Google trás um monte de notícias relatando os mais variados efeitos da oxitocina, como estimular a moral no indivíduo, aumentar a empatia e diminuir a agressividade entre as pessoas e manter a monogamia dos casais (e fazer com que os maridos achem suas esposas mais atraentes). A verdadeira Droga do Amor do Pedro Bandeira. A oxitocina também melhora a atividade cerebral de autistas e um abraço de 20 segundos estimula o cérebro a produzir o hormônio. Mais recentemente, a mídia tem divulgado que a oxitocina também pode ter um lado negro: ela estaria envolvida com o medo e a ansiedade depois de momentos estressantes. Mas, tentando separar o joio do trigo, o que é verdadeiramente científico nessa história, já que tudo que fica muito badalado acaba virando uma lenda urbana?

Existem mais de 20 mil trabalhos científicos publicados sobre a oxitocina, com mais de duas mil revisões da literatura. Ou seja, fazer uma pesquisa aprofundada sobre o assunto iria tomar um tempo razoável. Como oxitocina (ainda) não faz parte da minha linha de pesquisa no laboratório, vou me deter em apresentar aqui as coisas que aprendi com duas recentes revisões da literatura sobre o assunto.

A oxitocina foi o primeiro hormônio derivado de uma proteína a ser sequenciado e sintetizado em laboratório (no ano de 1953). O nome deriva do grego oxystokos, que significa algo como “nascimento rápido” devido às propriedades do hormônio em estimular as contrações da musculatura do útero no trabalho de parto. Esse hormônio é produzido e secretado pela glândula hipófise, que faz parte do sistema endócrino (ou seja, da produção e liberação de hormônios) do corpo, mas tem grande associação com o sistema nervoso central.

A oxitocina tem várias funções já conhecidas em relação ao amor natural: reprodução, nascimento e cuidados parentais (da mãe com o filhote). Uma grande quantidade de oxitocina é liberada durante o trabalho de parto, facilitando o nascimento do filhote, como dito acima. O hormônio também estimula no cérebro a formação de laços afetivos entre a mãe e o filhote. Além disso, a estimulação dos mamilos da mãe pelo filhote causa a liberação de oxitocina, que ajuda na liberação de leite materno. Mas, recentemente, a oxitocina vem sendo apontada como responsável em alguns comportamentos específicos, como o comportamento materno, reconhecimento social, escolha de parceiros sexuais, orgasmo e ansiedade.

Reconhecer a cria (e, no caso dos filhotes, reconhecer a sua mãe) é um comportamento materno essencial. Imagine uma manada de zebras na savana africana, onde os filhotes começam a andar poucas horas após o nascimento. A mãe zebra precisa rapidamente aprender a identificar o seu filhote naquele mar de listras pretas e brancas. A liberação de oxitocina é critica para esse processo. O inverso também é verdade; o hormônio é essencial para que o filhote aprenda a achar a sua mãe. O disparo do “amor de mãe” causado pela oxitocina é tão poderoso que a injeção do hormônio em ratas virgens induz o comportamento materno nelas para com filhotes de outras ratas. Oxitocina também está envolvida no comportamento de “amor de pai” e em fazer com que diferentes famílias ajudem na criação dos filhotes uma das outras, em experimentos com ratos-do-campo. Até o comportamento das mães de lamber a cria (literalmente) é induzido pela injeção do hormônio. Mas nem tudo é amor: a agressividade materna contra invasores para proteger a cria é aumentada com a injeção de oxitocina.

O amor entre os componentes de um casal também é importante. Mas o casamento é uma instituição biologicamente falida! A monogamia (ou seja, casais fixos sem relações extraconjugais) não é comum entre os mamíferos; acontece em apenas 3 % das espécies. E menina: se seu namorado é galinha, o hormônio do amor não é necessariamente a solução; os cientistas não conseguiram estabelecer relação clara entre os níveis de oxitocina e o comportamento (monogâmico ou galinha, digo, poligâmico) de espécies de ratos-do-campo. Porém, o hormônio parece ter uma função no estabelecimento de casais nas mais variadas espécies, de pássaros a macacos.

Roedores com comportamento social foram usados como modelos para o estudo da relação entre oxitocina e os contatos entre os grupos. Diferentes trabalhos mostraram que o hormônio está envolvido com a variação de comportamento durante as estações do ano, com a característica social ou solitária de algumas espécies e com as diferentes posições dos indivíduos na hierarquia social.

Estudos com humanos são mais difíceis, porque você normalmente não pode abrir a cabeça da pessoa e porque outras emoções ou pensamentos podem interferir na resposta obtida pelos pesquisadores. Mas existem alguns. Pessoas que inalaram oxitocina confiam mais nos outros e têm maior capacidade de inferir como outra pessoa está se sentindo. Elas também reagem menos a estímulos sociais negativos (por exemplo, são menos brigonas). Mas a oxitocina também tem seu lado escuro. Pessoas que inalaram o hormônio relataram ficar mais invejosas e, quando colocadas para trabalhar em grupo em jogos, protegem mais seus parceiros e são mais agressivas com as pessoas dos outros grupos.

Mas do que o hormônio do amor, a oxitocina parece ser o verdadeiro hormônio da vida social, regulando a forma como agimos em relação a parentes e amigos, e pessoas fora desse círculo de confiança. Entender como a oxitocina age e regula esses processos no cérebro vai trazer muitas informações sobre o próprio funcionamento desse órgão. E vai nos mostrar porque agimos assim ou assado.

Referências:

ANACKER, A. M.; BEERY, A. K. Life in groups: the roles of oxytocin in mammalian sociality. Frontiers in Behavioral Neuroscience, v. 7, p. 185, 2013.

TOM, N.; ASSINDER, S. J. Oxytocin in health and disease. International Journal of Biochemistry and Cell Biology, v. 42, n. 2, p. 202-205, 2010.

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