quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Meu novo bicho bizarro favorito (e seu olho complexo)

Olha o ornitorrinco! (Fonte: zigimoveis.blogspot.com)
Colorido é pouco! (Fonte: mikecann.co.uk)
Essa é meio verde, meio azul (Fonte: www.chicagonow.com)
Pense em um bicho estranho? Eu sempre pensava imediatamente no ornitorrinco, que era meu animal bizarro favorito. Um mamífero que não tem mamas (e o leite escorre pelos pelos, que filhotes lambem), bota ovo, tem um focinho em forma de bico de pato e, ainda por cima, é venenoso. Faz jus ao título, não? Mas, essa semana, descobri uns outros bichos bem estranhos, chamados de estomatópodes. Não é só o nome que é estranho. Os animais que fazem parte desse grupo são crustáceos, próximos dos camarões e lagostas. Algumas espécies são chamadas de lagostas-boxeadoras; vocês vão ver porquê.

Mas o quê esses bichos têm de estranho? Bem, para começar eles exageram na capacidade de serem coloridos, como vocês podem ver nas fotos. Depois, alguns são chamados lagostas-boxeadoras pela capacidade de socar com seu grande par de patas dianteiro. Mas não é um soquinho qualquer; é de botar o Mike Tyson no chinelo! Calcula-se que a força de impacto do “soco” desse bicho chegue a 60 kg/cm2 (o que, pelas minhas contas, dá 6 vezes mais que um soco de um faixa preta de caratê!). A aceleração do “soco” é parecida com o disparo de uma arma de fogo, e tudo acontece em menos de um milésimo de segundo! É tão rápido que a água em volta da pata “ferve” e gera uma onda de choque que pode matar a presa da lagosta-boxeadora mesmo se ela errar o golpe. Assim ela quebra carapaças de caranguejos, conchas de ostras e cascos de caramujos (ou o vidro do aquário...).
Essa tenta ser mais discreta... (Fonte: Wikipedia)

Para completar as bizarrices, a lagosta-boxeadora tem olhos muito mais complexos que os nossos. Nossos olhos possuem três diferentes tipos de células receptoras (chamadas cones) para “ver as cores”, que respondem a estímulos das luzes azul, verde e vermelha, e nos permitem ver todas as cores que vemos. A lagosta-boxeadora tem pelo menos 12 cones e, além das cores que a gente vê, elas são capazes ver luz ultravioleta e um pouco de infravermelho. A pergunta é por quê. Por que a evolução selecionou que essas espécies de crustáceos tenham 12 cones, quando três ou quatro são suficientes para enxergar na faixa que elas enxergam? Cientistas da Austrália e Taiwan começar a tentar desvendar o mistério em um trabalho publicado esse ano na famosa revista Science. E de uma forma bem original.

Primeiro, os pesquisadores “adestraram” uma espécie desse bicho bizarro, chamada cientificamente de Haptosquilla trispinosa, para seguir na direção de uma luz de cor específica, dando um petisco para o bicho quando ele cumpria a tarefa. Depois de treinado e sempre ir para a “luz da comida”, os cientistas testaram o quão capaz de distinguir duas cores próximas o bicho é (Será que funciona para testar entre homens e mulheres?). A “luz da comida” era colocada junto à outra luz de cor diferente mais parecida que vinha de outra direção. Se ele acertasse a luz da comida, ele era capaz de diferenciar; Se ele escolhesse a luz errada, quer dizer que ele se confundiu. Com 12 tipos de cones nos olhos, era de se esperar que eles fossem bons nisso, certo? Mas para a surpresa dos pesquisadores, a lagosta-boxeadora é de 2 a 10 vezes pior em distinguir cores que os humanos.

Depois os cientistas fizeram outros experimentos, medindo os impulsos nervosos no cérebro dos bichos em diferentes condições, e chegaram a uma nova hipótese que ainda precisa ser mais bem estudada. Segundo eles, a grande variedade de cones nos olhos não ajudaria a lagosta-boxeadora a distinguir melhor as cores, mas sim ajudaria a identificar um tom de cor de modo mais rápido e poupando trabalho do cérebro. Isso permitiria ao bicho localizar um predador ou presa com mais facilidade e ele poderia reagir com mais rapidez; algo importante se considerarmos que algumas espécies vivem em recifes de corais, uns dos ambientes mais coloridos do planeta.

Talvez, alguns de vocês estejam com vontade de perguntar: para que esse trabalho serve? Na verdade, eu não faço ideia e não vejo nenhuma aplicação prática direta dos resultados publicados, tanto para nós, quando para as lagostas-boxeadoras. Mas para aqueles que gostam de uma Teoria da Conspiração, segue uma última informação: esse estudo foi financiado, entre outras instituições, pelo Escritório Asiático de Pesquisa e Desenvolvimento Aeroespacial e pelo Escritório de Pesquisa Científica da Força Aérea (americana, eu acho). Será que eles querem transformar as lagostas-boxeadoras em pilotos de combate? Façam suas apostas!

Referência

THOEN, H. H.; HOW, M. J.; CHIOU, T. H.; MARSHALL, J. A different form of color vision in mantis shrimp. Science, v. 343, n. 6169, p. 411-413, 2014.

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