domingo, 9 de março de 2014

É melhor prevenir do que remediar!

Não existe ninguém que nunca tenha ouvido essa frase; e também acho que não existe ninguém que não concorde com ela. Na área da saúde, prevenir é de fato melhor para todo mundo: para o paciente, que não chega a ficar doente, e para os cofres públicos, já que reduz os gastos com tratamento. Existem vários marcadores que podem ser medidos por exames de laboratório que ajudam na detecção de doenças. Por exemplo, os níveis de glicose no sangue podem indicar diabetes e o colesterol alto é um fator de risco para doenças do coração. Mas a maioria desses marcadores só aparece quando a doença já existe e, assim, são marcadores para diagnóstico, e não de prevenção, e são específicos para cada doença, o que obriga os médicos a passarem uma bateria de exames para cada paciente no check-up para tentar descobrir algo errado. O ideal seria encontrar alguns marcadores de fácil obtenção (como no sangue ou urina) e que indicassem qualquer tipo de risco.

Esse foi o objetivo do trabalho publicado em Fevereiro na revista PLoS Medicine por pesquisadores da Estônia, Finlândia, Estados Unidos e Reino Unido. Os cientistas estudaram amostras de sangue de quase 10 mil voluntários (tive que procurar no Google: quem nasce na Estônia é...) estonianos, com idade entre 18 e 103 anos. Durante a pesquisa, que durou mais de cinco anos, cerca de 500 voluntários morreram de variadas causas naturais (entre elas, câncer e doenças cardíacas). O que os cientistas se perguntaram então foi: será que alguma coisa no sangue dessas pessoas poderia ter indicado que elas morreriam dentro de cinco anos? Por incrível que pareça, a resposta é sim! É melhor: apenas quatro marcadores foram suficientes para indicar o risco de morte. A análise mostrou que voluntários que apresentavam maior índice dos marcadores tinham uma chance 20 vezes maior de morrer de causas naturais do que as pessoas com menor índice.

Quais foram os marcadores? O primeiro é a α-1-glicoproteína ácida, uma proteína produzida no fígado e sempre presente no sangue. Ninguém ainda sabe a sua função no organismo, mas ela parece estar envolvida com o sistema imune e inflamação. O segundo é outra proteína produzida pelo fígado, a albumina. Os níveis dessa proteína no sangue já são usados como marcadores da função do fígado e dos rins, além do estado nutricional (se a pessoa está comendo direitinho) e nível de inflamação também. O terceiro marcador é o tamanho da partícula da VLDL, uma proteína responsável por carregar gorduras, como colesterol e triglicerídeos, pelo sangue. A VLDL pode estar envolvida com doenças do coração. O último marcador é o citrato, uma substância comumente produzida pelas células (e pela laranja, por isso ela é uma fruta cítrica, sacou?). Os cientistas não fazem ideia de em que o citrato está envolvido para ser um dos marcadores, mas ele pode funcionar como um anticoagulante natural.

Parece mentira, né? Apenas quatro componentes, fáceis que serem obtidos e medidos, e que indicam o risco de morte em médio prazo do paciente. Até os autores do trabalho acharam fácil demais. Então eles resolveram testar em outra população e repetiram o experimento em mais 7,5 mil voluntários finlandeses. Os resultados foram os mesmos, comprovando a confiabilidade do método.

Os autores alertam que ambas as populações analisadas são europeias e que isso não necessariamente se repete para outras regiões do mundo, de forma que a repetição do experimento em outros lugares é bem-vinda. Além disso, é preciso estudar melhor qual a relação ou função desses novos marcadores nas doenças, visto que eles não são específicos para uma ou outra. Mas que qualquer modo, esse trabalho é um bom avanço para que possamos prevenir doenças cada vez mais cedo.

Referência

FISCHER, K.; KETTUNEN, J. et al. Biomarker Profiling by Nuclear Magnetic Resonance Spectroscopy for the Prediction of All-Cause Mortality: An Observational Study of 17,345 Persons. PLoS Medicine, v. 11, n. 2, p. e1001606, 2014.

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