quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Novo caminho para o tratamento do diabetes

Fonte: www.mundodastribos.com

O diabetes, doença caracterizada pelos altos níveis de açúcar no sangue, atinge cerca de 20 milhões de brasileiros. A doença é classificada em dois tipos. No diabetes tipo I, a pessoa é incapaz de produzir ou liberar o hormônio insulina, responsável por fazer as células do corpo, principalmente fígado, músculos e tecido adiposo (que acumula gordura), pegarem a glicose do sangue. O diabetes tipo I normalmente aparece ainda na infância e esses indivíduos são tratados com o recebimento de doses injetáveis de insulina. Já no diabetes tipo II, as pessoas produzem insulina (na maioria das vezes até demais), mas as células não são capazes de “sentir” o hormônio e não retiram o açúcar do sangue, o que faz com que a glicose permaneça alta. O diabetes tipo II está claramente associada à obesidade e é uma doença crônica, que pode levar ao entupimento dos vasos sanguíneos (aterosclerose), danos na retina (que pode levar até a cegueira), pressão alta, problemas de coagulação (que podem levar ao infarto, ao derrame e a amputações) e problemas renais. Embora já existam alguns remédios para combater o diabetes tipo II, a doença é hoje uma pandemia global e os gastos da saúde pública com as suas complicações são enormes. Por isso, vários grupos de cientistas pelo mundo estudam novas formas de curar ou remediar a doença.

Um desses grupos, formado por pesquisadores americanos, publicou seus resultados na revista Nature, onde um novo alvo foi investigado. Os cientistas estudaram uma proteína, chamada IDE, que é uma protease, ou seja, é capaz de degradar outras proteínas. Uma das proteínas destruídas é a insulina. Os pesquisadores achavam que se eles fossem capazes que impedir a ação da IDE, sobraria mais insulina no sangue e as células retirariam mais glicose de circulação. Porém não é simples assim.

Mais de dez anos atrás, outro grupo americano criou um camundongo transgênico que não possuía o gene da IDE. Como esperado, a insulina não era destruída e fica alta no sangue, porém os animais também eram diabéticos. Isso acontece, provavelmente, pelo excesso de insulina, que dessensibiliza as células, que param de sentir o hormônio, mesmo em alta quantidade (lembre-se do que sua vó dizia: “tudo em excesso faz mal”). Assim, os pesquisadores precisavam de outra estratégia.

Eles procuraram em uma biblioteca de quase 14 mil compostos por possíveis inibidores da IDE e encontram seis moléculas que impediam a sua ação. Os cientistas escolheram uma delas para trabalhar em animais. Os camundongos receberam uma injeção com o composto e depois tomaram uma bebida doce (em um sistema parecido com o exame de sangue que os médicos pedem para investigar se um paciente está diabético). Os animais tratados apresentaram níveis de açúcar menores que os controles (que não receberam a nova molécula), indicando uma melhor resposta da insulina. Camundongos obesos (que acabam apresentando diabetes tipo II, assim como nós) também melhoraram seus níveis de açúcar no sangue.

Os cientistas também descobriram que a IDE pode destruir outros dois hormônios importantes para os níveis de glicose no sangue: a amilina e o glucagon. E isso é bom e ruim. É bom porque a amilina diminui a passagem de comida pelo estômago, mantendo a pessoa sem fome por mais tempo. Assim, esse novo composto pode reduzir a fome e funcionar como um redutor de apetite (mas isso é apenas uma hipótese, já que isso ainda não foi testado). Mas é ruim porque o glucagon tem efeitos contrários aos da insulina e age para aumentar os níveis de glicose no sangue. Isso pode explicar, em parte, porque o animal transgênico sem IDE acaba ficando diabético.

Isso deixou os cientistas cautelosos. Eles escreveram que assim, para que esse novo composto seja transformado em um remédio no futuro, será necessário modifica-lo para que ele tenha um efeito curto, logo após a alimentação. Ou ele terá que ser tomado junto com outro composto que bloqueie a ação do glucagon, evitando um aumento indesejável dos níveis de glicose no sangue. De qualquer forma, ainda vamos precisar esperar entre cinco a 10 anos para ver esse novo remédio nas farmácias, o que não diminui a esperança de termos mais uma arma para combater o diabetes.

Referências

FARRIS, W. et al. Insulin-degrading enzyme regulates the levels of insulin, amyloid beta-protein, and the beta-amyloid precursor protein intracellular domain in vivo. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 100, n. 7, p. 4162-7, 2003.

MAIANTI, J. P. et al. Anti-diabetic activity of insulin-degrading enzyme inhibitors mediated by multiple hormones. Nature, v. 511, n. 7507, p. 94–8, 2014.

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