sábado, 1 de novembro de 2014

O que água e esgoto têm a ver com experimentação animal?

 
Fonte: ramonlamar.blogspot.com
Assisti a um vídeo no Youtube, enviado pelo Prof. Thales Trez, do Departamento de Ciências Humanas, da Universidade Federal de Alfenas, Minas Gerais. O vídeo começa com uma variação da pergunta que uso como título desse artigo. A minha resposta: - Nada, professor...

O Dr. Trez discorre pelos 7 minutos do vídeo uma série de fatos e argumentos, concluindo que, embora camundongos e humanos sejam 90 % geneticamente idênticos, usar esses roedores como modelos para pesquisa humana é tão absurdo quanto beber água contaminada com 10 % de esgoto porque 90 % dela ainda são puro H2O. Muitos dos fatos e argumentos são válidos. Mas, usando outra analogia, Trez é pessimista e vê o copo meio vazio. Eu prefiro ver os mesmos fatos enchendo metade do copo. A minha visão e resposta seguem abaixo.

Trez diz que o melhor modelo para estudos de fisiologia humana são os próprios humanos. Ele não pode estar mais certo! Os nossos modelos animais atuais possuem diversas limitações, que impedem certos tipos de experimentos e reduzem a confiabilidade dos resultados obtidos. Por exemplo, é difícil estudar os efeitos benéficos da vitamina C usando camundongos porque eles são capazes de fazer a sua própria vitamina C, enquanto nós não (Campbell & Dachs, 2014). Porém, é possível encontrar muita informação pela metade e tendenciosa pela Internet. Dizem que o antibiótico penicilina é tóxico para porquinhos-da-índia. Efetivamente, eles podem morrer se tomarem esse remédio, porém a penicilina não afeta o animal diretamente, mas mata boa parte da sua flora intestinal, o que causa uma forte diarreia nos bichos (Farrar, Kent, & Elliott, 1966). Contudo, até esses resultados problemáticos são importantes para que a Ciência entenda como os remédios funcionam. Mas usar humanos em experimentos traz muitas outras restrições, que impedem a realização de testes que seriam essenciais durante o desenvolvimento de um novo tipo de cirurgia, tratamento ou medicamento. Posso dar vários exemplos, mas cito um. Eu não posso retirar o cérebro de um paciente vivo com Alzheimer para analisar o desenrolar molecular da doença. Mas esse tipo de investigação é essencial para que se entenda como o Alzheimer ataca o cérebro e como podemos evitar que ele aconteça. Modelos animais para várias doenças neurodegenerativas nos permitem essas avaliações.

Porém, Trez só se preocupa com um tipo de teste: o de avaliação da eficácia de medicamentos. De fato, os medicamentos só são liberados para uso pelas agencias reguladoras depois de experimentos exaustivos e bem controlados, com pessoas saudáveis e pessoas doentes. Porém, os testes de eficácia são só a ponta final de um longo processo de desenvolvimento e estudos. Anos antes de um novo medicamento ser testado em humanos, ele primeiro teve que ser descoberto ou criado. Para isso, os cientistas tiveram que esmiuçar diferentes partes dos mecanismos celulares básicos relacionados com a doença a ser tratada. Isso pode ter sido feito usando muitos modelos, como leveduras, vermes, moscas ou camundongos. Células humanas em cultura também podem ser usadas, mas a escolha do modelo depende da doença em questão, visto que cada um tem seus prós e contras. Depois o possível novo medicamento é testado em diferentes animais, com dois objetivos básicos: testar se funciona e ver se é tóxico. As respostas são 100 % confiáveis? Não, mas nada na Ciência é. Porém, se nesses testes, as diferentes espécies de cobaias usadas apresentarem efeitos colaterais graves, o desenvolvimento do medicamento será abandonado ou o composto terá de ser modificado e voltar para o início do processo. No fim, depois que a nova droga for considerada segura em animais, ela passará por várias rodadas de testes em humanos, em grupos cada vez maiores, até ser considerada eficaz e segura para ser comercializada. Nenhum comitê de ética iria permitir que se testasse uma droga, especialmente se for uma nova classe de molécula, em humanos sem saber se ela tem efeitos colaterais graves. Em suma, as drogas são testadas em humanos na etapa final, mas é impossível, atualmente, estudar a biologia celular e molecular e desenvolver novos medicamentos apenas em humanos, sem usar modelos animais.

O professor Trez cita que algumas drogas para tratar doenças humanas simplesmente não funcionam em animais. É verdade; mas muitas outras funcionam muito bem (e minha visão otimista me faz ver o copo quase transbordando de casos positivos). As estatinas, grupo de drogas usadas para controlar os níveis de colesterol no sangue, funcionam muito bem em coelhos, camundongos e ratos (Pecoraro, Moja, Dall’Olmo, Cappellini, & Garattini, 2014). Três diferentes tipos de medicamentos usados para tratar a diabetes em humanos também podem ser usados no seu gato de estimação (Palm & Feldman, 2013). O anti-inflamatório cetoprofeno funciona bem em ratos (Wang et al., 1997), além de ser receitado por veterinários para o tratamento de cavalos (Forney, 2007). Dessa forma, simplesmente dizer que os medicamentos não funcionam em animais é ignorar boa parte dos dados.

Da mesma forma, os medicamentos nem sempre funcionam em todas as pessoas. Somos diferentes geneticamente e a nova área de pesquisa que investiga porque um indivíduo responde a um tratamento enquanto outro não é chamada farmacogenética. Em um futuro próximo, com o barateamento dos custos de sequenciamento de DNA, poderemos ter tratamento especializado para cada pessoa, com base nas variantes de genes que ela possui. Isso já é realidade para o tratamento do câncer, onde o tumor é analisado e tipado geneticamente, e o clínico pode escolher o quimioterápico mais eficaz para cada caso. Porém, os medicamentos funcionam na maior parte das pessoas e descartar as pesquisas de desenvolvimento de medicamentos com base nessa premissa é privar a população de possíveis curas.

Trez também é bem pessimista ao comparar nossa semelhança genética com o de outros seres. Somos 98 % geneticamente iguais aos primatas, 90 % ao camundongo, e até 50 % iguais a uma banana. Mas Trez prefere as diferenças, e invalida todas as pesquisas feitas com roedores devido a 10 % de diferença genética. Porém, a conclusão não deve ser simples assim. Se considerarmos que são estudados genes aleatórios, o obviamente não é verdade, e que os genes são independentes, o que também não é, 90 % das pesquisas poderiam ser usadas e 10 % não. Mas é claro que os cientistas têm alguma noção das limitações de cada modelo e não fazem pesquisas aleatoriamente. Nós e as leveduras, que produzem cerveja e pão, dividimos apenas 26 % dos genes, mas ainda assim, o metabolismo de galactose (um tipo de açúcar) é basicamente o mesmo. Isso pode fazer das leveduras um modelo interessante para estudar a galactosemia, uma doença humana onde os pacientes não conseguem degradar a galactose (De-Souza et al., 2014). Somos 44 % iguais à mosca-da-fruta, mas dividimos três a cada quatro genes que causam doenças em humanos (Chien, Reiter, Bier, & Gribskov, 2002), fazendo desse inseto um interessante modelo para o estudo. Escolher o modelo certo para cada pesquisa é essencial e permite obter resultados que nunca conseguiríamos apenas com humanos.

Outras críticas de Trez à experimentação animal são o ambiente totalmente controlado onde as pesquisas são feitas e a uniformidade genética dos modelos. Isso não representa o mundo real onde as pessoas vivem; a diversidade genética humana é grande e os ambientes a qual estamos expostos são muito variados. Mas é simplesmente impossível obter qualquer tipo de dado científico confiável se tivermos muitas variáveis influenciando o experimento. Como diferenciar o efeito da droga testada dos possíveis efeitos da temperatura, alimentação, entre outras coisas? Devido às condições controladas, é possível obter dados importantes estudando uma dezena de animais, mas precisamos testar um novo medicamento em 10 mil pessoas para ter certeza da sua eficácia e segurança. De fato, o ambiente controlado e a genética dos modelos não representam a nossa realidade, mas permite o desenvolvimento de novos medicamentos, e o mais importante, com um número mínimo de animais usados.

Em suma, nós somos os melhores modelos para nós mesmos, mas não podemos usar humanos para a grande maioria dos estudos de ciência básica ou de desenvolvimento de medicamentos – embora dezenas de milhares de voluntários sejam testados quando tivermos certeza de que a nova droga é segura em animais. Ainda não podemos substituir os animais em boa parte das pesquisas, mas muitos grupos de pesquisadores pelo mundo estão buscando novas tecnologias e métodos para isso. A recente criação da simulação tecidos e órgãos em chips são uma animadora esperança (Selimović, Dokmeci, & Khademhosseini, 2013). Mas isso ainda é futuro.

Referências

Campbell, E. J., & Dachs, G. U. (2014). Current limitations of murine models in oncology for ascorbate research. Frontiers in Oncology, 4, 282.

Chien, S., Reiter, L. T., Bier, E., & Gribskov, M. (2002). Homophila: human disease gene cognates in Drosophila. Nucleic Acids Research, 30(1), 149–151.

De-Souza, E. A, Pimentel, F. S. A, Machado, C. M., Martins, L. S., da-Silva, W. S., Montero-Lomelí, M., & Masuda, C. A. (2014). The unfolded protein response has a protective role in yeast models of classic galactosemia. Disease Models & Mechanisms, 7(1), 55–61.

Farrar, W. E., Kent, T. H., & Elliott, V. B. (1966). Lethal Gram-Negative Bacterial Superinfection in Guinea Pigs Given Bacitracin. Journal of Bacteriology, 92(2), 496–501.

Forney, B. C. (2007). Equine Medications. Lexington: Blood Horse Publications.

Palm, C. A., & Feldman, E. C. (2013). Oral hypoglycemics in cats with diabetes mellitus. The Veterinary Clinics of North America. Small Animal Practice, 43(2), 407–15. 

Pecoraro, V., Moja, L., Dall’Olmo, L., Cappellini, G., & Garattini, S. (2014). Most appropriate animal models to study the efficacy of statins: a systematic review. European Journal of Clinical Investigation, 44(9), 848–71. 

Selimović, S., Dokmeci, M. R., & Khademhosseini, A. (2013). Organs-on-a-chip for drug discovery. Current Opinion in Pharmacology, 13(5), 829–33.

Wang, L. M., Toyoshima, A., Mineshita, S., Wang, X. X., Yamamoto, T., Nomura, Y., … Honda, Y. (1997). The anti-inflammatory effects of ketoprofen in animal experiments. Drugs under Experimental and Clinical Research, 23(1), 1–6.

Um comentário:

  1. Excelente, finalmente um comentário de uma pessoa sensata, concordo 100%.

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