domingo, 6 de julho de 2014

No sangue e no osso


(Fonte: blogdotarso.com)


É claro que vocês viram: na sexta, depois de uma joelhada nas costas, o camisa 10 da Seleção Brasileira fraturou uma vértebra lombar.

#ForçaNeymar

A lesão é grave e Neymar Jr. não vai mais jogar a Copa das copas. Mas ele tem 22 anos, vai se recuperar rápido e deve voltar aos gramados em até seis semanas. Mas a minha avó (beijo, Dona Sofia) já tem 80 e muitos. No sábado da semana passada, ela tropeçou e caiu. Felizmente, não quebrou nenhum osso, mas se tivesse a sua recuperação seria muito mais difícil e longa que a do Neymar.

Não é óbvio para todo mundo, mas os ossos não são um simples depósito de minerais que sustenta os músculos; os ossos são tecidos vivos, que estão em constante degradação, formação e regeneração. E como todo tecido vivo, os ossos são irrigados por vasos sanguíneos. O sangue transporta células, oxigênio, nutrientes e excreções do metabolismo através do corpo, mas as células que formam os vasos sanguíneos também produzem diferentes substâncias que regulam o funcionamento do corpo. Como elas funcionam ainda é pouco entendido. Já se sabia que as células do tecido ósseo controlam a criação de novos vasos próximos a elas. Por outro lado, se achava que o contrário também podia acontecer e os vasos sanguíneos deveriam influenciar na manutenção e regeneração dos ossos. Mas isso ainda não tinha sido mostrado e foi o alvo da investigação de um grupo de cientistas da Alemanha, que publicou dois trabalhos seguidos na sonho de consumo revista britânica Nature.

Nesses trabalhos, os pesquisadores viram que, como era de se esperar, a presença dos vasos sanguíneos determina o quanto de oxigênio está disponível e a atividade metabólica das células naquela região do osso. Porém, existem dois tipos de microvasos no osso, segundo a pesquisa. Um desses tipos foi chamado de vaso H. Perto desses vasos, os cientistas encontraram uma maior quantidade de osteoblastos e osteócitos (células como nomes difíceis e que são responsáveis pela regeneração do osso). Quando os pesquisadores cultivaram esses vasos no laboratório, viram que eles também eram capazes de produzir proteínas que estimulavam os osteó-coisas a se multiplicar.

Depois, quando os cientistas compararam camundongos novos e idosos, viram que os mais velhos tinham menos vasos H nos ossos. Assim, eles tinham menos osteó-células e isso pode ser mais um ponto para explicar porque os ossos da Dona Sofia demoram mais que os do Neymar para se regenerarem.

Por último, os pesquisadores também descobriram que além de estimular a saúde dos ossos, os vasos H induzem a formação de novos vasos sanguíneos nos ossos, tendo assim um efeito multiplicador. Esses vasos têm uma importante atividade das proteínas HIF-1α (que é um sensor celular dos níveis de oxigênio) e Notch e elas são, de maneira ainda não totalmente esclarecida, necessárias para a angiogênese e osteogênese (que são maneiras difíceis e pomposas de dizer formação de vasos sanguíneos e de ossos).

Os resultados dessas pesquisas ajudam a entender um pouco mais sobre a saúde dos ossos e sua relação estreita com os vasos sanguíneos e podem ser passos chaves para a descoberta, no futuro, de novos remédios para acelerar a recuperação de atletas e evitar a osteoporose em pessoas idosas.

Referências

KUSUMBE, A. P.; RAMASAMY, S. K.; ADAMS, R. H. Coupling of angiogenesis and osteogenesis by a specific vessel subtype in bone. Nature, v. 507, n. 7492, p. 323-328, 2014.

RAMASAMY, S. K.; KUSUMBE, A. P.; WANG, L.; ADAMS, R. H. Endothelial Notch activity promotes angiogenesis and osteogenesis in bone. Nature, v. 507, n. 7492, p. 376-380, 2014.

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