terça-feira, 15 de julho de 2014

Sangue novo no pedaço

(Fonte: www.conexao.org.br)
Roberto Marinho, que herdou do pai as Organizações Globo e multiplicou seu patrimônio, morreu em 2003 com 98 anos. Grande longevidade! O cara viveu para burro! Sobre isso, algumas pessoas diriam o clássico ditado “Vaso ruim não quebra!”. Mas, quando eu era moleque, rolava uma lenda urbana de que o Marinho vivia muito e bem porque transferia sangue de recém-nascidos para o seu corpo... Bizarro e macabro, até para o líder da Globo. Além do mais, sem nenhum dado científico que comprovasse qualquer melho... Não, pera!

Cientistas americanos, que publicaram os resultados das suas pesquisas em dois trabalhos na lendária revista Science, identificam uma proteína presente no sangue de indivíduos jovem que ajuda na regeneração dos músculos e cérebro de indivíduos idosos. Que história é essa?

Tanto a regeneração dos músculos depois de um dano qualquer quanto a formação de novos neurônios depende de células-tronco especializadas nesses dois órgãos. Os músculos de indivíduos mais velhos apresentam uma menor quantidade e atividade dessas células e, assim, esse músculo tem uma capacidade de se regenerar menor.

Os pesquisadores descobriram que as células-tronco presentes nos músculos de indivíduos mais velhos têm o DNA mais danificado quando comparadas a células de músculos de indivíduos novos. Além disso, se as células de indivíduos novos são tratadas com uma grande quantidade de raios-X, que é capaz de danificar o DNA, elas perdem parte da sua capacidade de regenerar os músculos. Agora, o sangue.

Para estudar os efeitos do sangue produzido por um camundongo jovem em um velho e vise-e-versa, os cientistas fizeram experimentos de parabiose. Nesse caso, os dois animais são unidos cirurgicamente, como se fossem camundongos siameses, e isso faz com que o sangue dos dois circule junto pelos dois organismos. Nesse experimento, foi possível ver que o camundongo mais velho recupera a capacidade de regeneração dos músculos e o DNA das células-tronco fica menos danificado. No cérebro, ocorre um aumento da quantidade e capacidade de multiplicação das células-tronco cerebrais e no número de novos neurônios presentes. Além disso, a capacidade cerebral, que foi medida pela função do olfato dos camundongos, e o volume de sangue no cérebro também aumentam nos animais mais velhos.

Experimentos de parobiose (Adaptado de joshmitteldorf.scienceblog.com)
Mas o que o sangue jovem tem que rejuvenesce o animal mais velho? Os pesquisadores comparam a quantidades de muitas moléculas nas duas amostras e encontraram algumas diferenças. Entre elas, eles viram que a proteína GDF11 está presente em níveis bem maiores no sangue jovem quando comparado com sangue “idoso”. Então, depois, os cientistas injetaram a GDF11 nos camundongos velhos e viram que esse tratamento aumenta a quantidade e atividade das células-tronco nos músculos, além de melhorar a condição do DNA delas. Além disso, o tratamento acelera a regeneração do tecido muscular. Esses animais também eram mais resistentes a exercícios de longa duração, tinham níveis de açúcar no sangue menor após esse exercício, e eram mais fortes. O cérebro também foi afetado; o tratamento aumentou o volume dos vasos sanguíneos presentes e formação de novos neurônios.

Esses resultados indicam que a GDF11 pode ser um novo e muito interessante alvo para o desenvolvimento para novas drogas para o combate ao envelhecimento do músculo e do cérebro. Quando os cientistas entenderem melhor como esse sistema funciona, teremos mais esperança para viver mais e melhor.

Roberto Marinho, seu macaquinho danado! Sempre a frente do seu tempo!

Referências

KATSIMPARDI, L.; LITTERMAN, N. K.; SCHEIN, P. A.; MILLER, C. M.; LOFFREDO, F. S.; WOJTKIEWICZ, G. R.; CHEN, J. W.; LEE, R. T.; WAGERS, A. J.; RUBIN, L. L. Vascular and neurogenic rejuvenation of the aging mouse brain by young systemic factors. Science, v. 344, n. 6184, p. 630-634, 2014. 

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