terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Se sujar faz bem?


Outro dia navegando na internet me deparei com uma reportagem que me chamou a atenção, “Exposição à sujeira, germes e pelos pode proteger bebês contra alergia e asma”. O texto dizia que manter crianças nos seus primeiros anos de vida em ambientes não muito limpos diminui o risco de desenvolvimento de asma. Será mesmo que a marca de sabão em pó estava certa todo esse tempo, se sujar realmente faz bem?

Bom, a asma é uma doença relacionada ao sistema de defesa do corpo (que chamamos de sistema imune) e como ele interage com o ambiente. Um sistema imune bem regulado tem capacidade de reconhecer o que causa mal ao corpo e o que pode ser ignorado. Assim, em pessoas com a imunidade competente o contato com pólen, pelo de gato, entre outras coisas comuns ao ambiente não levam a ativação do sistema imune. No entanto, em pessoas alérgicas esse contato leva a uma ativação seletiva de uma parte da imunidade, com grande produção de substâncias que acabam sendo tóxicas para o corpo.

Mas o que isso tem a ver com sujeira?

Na verdade, não é exatamente a sujeira, mas os pesquisadores acreditam que o contato com uma maior diversidade de microrganismos e moléculas do ambiente, nos três primeiros anos de vida, pode moldar melhor a imunidade. Assim o corpo teria capacidade de tolerar substâncias do ambiente (RIISER, 2015). Esse processo ocorreria semelhante a tolerância do sistema imune para as diversas substância do nosso corpo. As células da imunidade não geram resposta contra as demais células do corpo, porque elas são “educadas” durante seu processo de maturação Elas são apresentadas a moléculas próprias e as que as toleram se mantem, as que se ativam são eliminadas e assim ocorre a seleção, impedindo auto reatividade.

Para testar essa hipótese, os pesquisadores realizaram estudos populacionais onde se comparou a incidência de asma entre pessoas que vivem em ambientes urbanos com as que vivem em fazenda. Eles acreditam que viver em uma fazenda permite a pessoa ter contato com maior diversidade de substância que na cidade. E realmente pessoas que vivem em fazendas tiveram menor prevalência de asma que as que vivems na cidades (VON MUTIUNS, 2005). E essa tendência vem sendo confirmada em diversos países e regiões (TIMM, 2015; WELLS, 2014).

Mesmo com o fato dessa correlação ser realmente interessante, uma questão ainda permanece sem resposta. É realmente o contato com maior diversidade da fazenda que impede o desenvolvimento de asma? Ou não viver em contato com fumaça e poluição da cidade que faz esse efeito? Alguns trabalhos já mostraram correlação entre poluição e aumento da prevalência de asma (D’AMATO, 2005). Além disso, um outro fator também vai contra os primeiros trabalhos, e tem a ver com o sistema de saúde local. Uma pessoa com asma necessita de cuidados médicos que muitas vezes não encontra em ambientes rurais das fazendas e, por esse motivo, as pessoas com asma precisam se mudar para regiões mais próximas das cidades com melhor acesso a serviços médicos. Com isso, talvez as fazendas tenham menos pessoas com asma simplesmente porque as com asma se mudam a procura de melhor serviço médico.

Apesar da questão sem resposta, um último estudo traz novamente a brasa para a sardinha de que se sujar faz bem. Os pesquisadores conseguiram mostrar que as fazendas possuem mais microrganismos que nos demais lugares (EGE, 2011). Eles analisaram a composição dos microrganismos contida no ambiente das casas em fazendas e comparam com casas nos demais lugares na mesma região e viram que a quantidade de microrganismos na fazenda era maior. Depois disso, eles foram além, correlacionaram esses resultados com a incidência de asma e bingo! Quanto maior a quantidade de microrganismos menor a quantidade de pessoas com asma.

Depois de muitas evidências e uma questão ainda sem resposta, não é possível dizer com certeza se a “sujeira” é aliada ou inimiga. Só sei que ficar na cidade com a fumaça e a poluição não é uma boa escolha (mas às vezes não é uma opção).

Referências

D’AMATO, G. at al. Environmental risk factors and allergic bronchial asthma. Clinical e Experimental Allergy, v.35 n.9, p. 1113-1124, 2005.

EGE, M. J. at al. Exposure to environmental microorganisms and childhood asthma. The New England Journal of Medicine, v. 364, n. 8, p. 701-709, 2011.

VON MULTIUS, E; VERCILLY, D. Farm living: effects on childhood asthma and allergy. Nature Reviews Imnunology, v. 10, p. 861-868, 2010.

RIISER, A. The human microbiome, asthma, and allergy. Allergy Asthma Clinical Immunology, v. 11, 2005

TIMM, S. et al. The Urban-Rural Gradient In Asthma: A Population-Based Study in Northern Europe. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 13, n. 93, 2015.
 
WELLS, A. D.; POOLE, J. A.; ROMBERGER, D. J.; Influence of farming exposure on the development of asthma and asthma-like symptoms. International Immunopharmacology, v. 23, p. 356-363, 2014.

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