quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Suco de graviola: nova fosfoetanolamina?


Recebi pelo Whatsapp uma mensagem sobre a mais nova cura do câncer: graviola. Um produto milagroso, 10 mil vezes mais potente que a quimioterapia tradicional. Recheada da já típica teoria da conspiração, a mensagem diz que a graviola é antimicrobiana, cura verminose, combate a pressão arterial, reduz o estresse, melhora a depressão e age no sistema nervoso, mas a indústria farmacêutica esconde esses benefícios para continuar vendendo seus remédios.

A graviola, que atende pelo nome científico de Annona muricata, é originária das Antilhas e usada como planta medicinal em diferentes partes da América Latina. Mas a graviola tem algum efeito comprovado sobre o câncer?

Procurei pela literatura e descobri que a graviola realmente está sendo estudada como uma possível fonte de novos compostos para o combate ao câncer. A planta já é estudada há pelo menos 20 anos, mas não existe estudo clínico que mostre sua eficiência em pacientes com tumores. Porém, várias pesquisas mostram que extratos de diferentes partes da graviola agem matando células tumorais em cultura e em animais de laboratório.

Em 1996, pesquisadores americanos purificaram diversos compostos (chamados acetogeninas) da semente da graviola e um desses compostos foi capaz de matar células de câncer de intestino em cultura (RIESER et al., 1996). Ele realmente foi 10 mil vezes mais potente que a adriamicina, uma quimioterapia usada até hoje (e daí deve vir a história que o suco de graviola é melhor que a quimioterapia). Nos anos seguintes, outros grupos isolaram novas e diferentes acetogeninas da semente e folha da planta e mostraram a capacidade delas em matar células de câncer de próstata, pâncreas e fígado em cultura (CHANG; WU, 2001; CHANG et al., 2003; KIM et al., 1998; LIAW et al., 2002). Isso quer dizer que a graviola cura o câncer? Não. Embora esses compostos estejam presentes na planta, eles estão em quantidade baixa e não necessariamente são absorvidos pelo corpo. Mas poderão ser usados para o desenvolvimento de novos quimioterápicos.

Depois, pesquisadores pelo mundo investigaram o efeito de extratos de diferentes partes da planta sobre células tumorais. Os grupos mostraram que esses extratos são tóxicos para células de tumores de laringe, pulmão e próstata (DE MELO et al., 2010; PIEME et al., 2014; SUN et al., 2014; ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI et al., 2014a, 2014b). Porém, um trabalho mostrou que o extrato de folha de graviola é um pouco tóxico também para as células saudáveis (CIJO GEORGE et al., 2012). Isso quer dizer que a graviola cura o câncer? Não. Esses extratos normalmente são feitos misturando as partes da planta com solventes orgânicos, para permitir retirar os compostos que não se misturam com a água. É como um chá feito com metanol, por exemplo. E, como eu espero que vocês imaginem, um chá com metanol não deve ser bebido.

E um chá com água? Dois grupos de pesquisadores recentemente avaliaram o efeito de um extrato aquoso de folha de graviola (o que poderia ser semelhante a um chá muito, muito, muito concentrado). Esse extrato foi capaz de agir contra células de câncer de pele em cultura (MAGADI et al., 2015). Em outro estudo, o extrato reduziu o aparecimento de câncer de próstata em camundongos usados como modelo para essa doença (ASARE et al., 2015). Isso quer dizer que a graviola cura o câncer? Não. Embora, em teoria, os mesmo compostos presentes no extrato aquoso de folha de graviola irão estar em um chá da mesma folha, no chá eles estarão em uma quantidade muito menor. Seria necessário beber centenas ou milhares de litros de chá por dia para ter um efeito similar.

Outros grupos de pesquisadores passaram dos testes em cultura de célula e testaram os extratos de graviola em animais. Os extratos se mostram eficientes em animais com câncer de pâncreas, pele e próstata, reduzindo a quantidade e tamanho dos tumores, e o espalhamento do câncer para outros órgãos (HAMIZAH et al., 2012; TORRES et al., 2012; YANG et al., 2015). Em um trabalho recente, pesquisadores da Malásia testaram um composto purificado da graviola (chamado anomuricina E) em camundongos usados como modelos para câncer de intestino e observaram uma redução no aparecimento de tumores (ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI et al., 2015). Isso quer dizer que a graviola cura o câncer? Não. Os extratos utilizados apresentam uma quantidade de compostos muito mais alta que conseguimos bebendo um suco de graviola. Além disso, a anomuricina E acabou de ser testada em camundongos e vários testes em animais ainda serão necessários para chegarmos a possíveis testes clínicos.

Olhando esses resultados, posso dizer que o extrato de graviola e as acetogeninas estão na mesma situação da fosfoetanolamina: os experimentos com células em cultura e animais de laboratório são promissores, mas não existe ainda nenhuma evidência que funcione em pacientes humanos. Pelo menos, suco de graviola é gostoso e você pode tomar sem medo (mas nunca parar com o tratamento).

Referências

ASARE, G. A. et al. Antiproliferative activity of aqueous leaf extract of Annona muricata L. on the prostate, BPH-1 cells, and some target genes. Integrative Cancer Therapies, v. 14, n. 1, p. 65–74, 2015.

CHANG, F. R. et al. New adjacent Bis-tetrahydrofuran Annonaceous acetogenins from Annona muricata. Planta Medica, v. 69, n. 3, p. 241–246, 2003.

CHANG, F. R.; WU, Y. C. Novel cytotoxic annonaceous acetogenins from Annona muricata. Journal of Natural Products, v. 64, n. 7, p. 925–931, 2001.

CIJO GEORGE, V. et al. Quantitative assessment of the relative antineoplastic potential of the n-butanolic leaf extract of Annona Muricata Linn. in normal and immortalized human cell lines. Asian Pacific Journal of Cancer Prevention, v. 13, n. 2, p. 699–704, 2012.

DE MELO, J. G. et al. Antiproliferative activity, antioxidant capacity and tannin content in plants of semi-arid northeastern Brazil. Molecules, v. 15, n. 12, p. 8534–8542, 2010.

HAMIZAH, S. et al. Chemopreventive potential of Annona muricata L leaves on chemically-induced skin papillomagenesis in mice. Asian Pacific Journal of Cancer Prevention, v. 13, n. 6, p. 2533–2539, 2012.

KIM, G. S. et al. Muricoreacin and murihexocin C, mono tetrahydrofuran acetogenins, from the leaves of Annona muricata. Phytochemistry, v. 49, n. 2, p. 565–571, 1998.

LIAW, C. C. et al. New cytotoxic monotetrahydrofuran annonaceous acetogenins from Annona muricata. Journal of Natural Products, v. 65, n. 4, p. 470–475, 2002.

MAGADI, V. P. et al. Evaluation of cytotoxicity of aqueous extract of Graviola leaves on squamous cell carcinoma cell-25 cell lines by 3-(4,5-dimethylthiazol-2-Yl) -2,5-diphenyltetrazolium bromide assay and determination of percentage of cell inhibition at G2M phase of cell c. Contemporary Clinical Dentistry, v. 6, n. 4, p. 529–533, 2015.

PIEME, C. A. et al. Antiproliferative activity and induction of apoptosis by Annona muricata (Annonaceae) extract on human cancer cells. BMC Complementary and Alternative Medicine, v. 14, p. 516, 2014.

RIESER, M. J. et al. Five Novel Mono-tetrahydrofuran Ring Acetogenins from the Seeds of Annona muricata. Journal of Natural Products, v. 59, n. 2, p. 100–108, 1996.

SUN, S. et al. Three new anti-proliferative Annonaceous acetogenins with mono-tetrahydrofuran ring from graviola fruit (Annona muricata). Bioorganic and Medicinal Chemistry Letters, v. 24, n. 12, p. 2773–2776, 2014.

TORRES, M. P. et al. Graviola: A novel promising natural-derived drug that inhibits tumorigenicity and metastasis of pancreatic cancer cells in vitro and in vivo through altering cell metabolism. Cancer Letters, v. 323, n. 1, p. 29–40, 2012.

YANG, C. et al. Synergistic interactions among flavonoids and acetogenins in Graviola (Annona muricata) leaves confer protection against prostate cancer. Carcinogenesis, v. 36, n. 6, p. 656–665, 2015.

ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI, S. et al. Annona muricata leaves induce G1 cell cycle arrest and apoptosis through mitochondria-mediated pathway in human HCT-116 and HT-29 colon cancer cells. Journal of Ethnopharmacology, v. 156, p. 277–289, 2014a.

ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI, S. et al. Annona muricata leaves induced apoptosis in A549 cells through mitochondrial-mediated pathway and involvement of NF-kappaB. BMC Complementary and Alternative Medicine, v. 14, n. 1, p. 299, 2014b.

ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI, S. et al. The Chemopotential Effect of Annona muricata Leaves against Azoxymethane-Induced Colonic Aberrant Crypt Foci in Rats and the Apoptotic Effect of Acetogenin Annomuricin E in HT-29 Cells: A Bioassay-Guided Approach. PloS one, v. 10, n. 4, p. e0122288, 2015.

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