sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Fadiga adrenal: uma doença que não existe


Em um episódio do programa Salutis, coordenado por João Carlos Baldan, o Dr. José Roberto Kater diz que a fadiga adrenal só é diagnosticada no sétimo médico. Mas o que é a fadiga adrenal e por que é difícil para o médico descobrir a doença? A resposta é simples: porque ela não existe.

A fadiga adrenal foi inventada em 1998 pelo quiroprático (a quiropraxia é um ramo da medicina alternativa que mistura o uso de energia vital com massagens e banhos de gelo para tratar problemas musculares; uma prática sem nenhuma comprovação científica que pode ser tema de outra postagem) James Wilson como uma hipótese para explicar uma mistura de sintomas, como cansaço, indisposição e fraqueza sem explicação, dificuldade de acordar de manhã, e outras coisas mais subjetivas, como vontade de tomar café e de comer doce. Segundo essa hipótese, esses sintomas são explicados por uma redução ou desregulação na produção de cortisol (um hormônio importante do corpo, responsável por várias coisas como a resposta ao estresse, medo, infecções) pelas glândulas adrenais (daí o nome da doença, a fadiga adrenal seria o "cansaço" da glândula, que diminuiria a produção de cortisol). A quantidade de cortisol que é produzida e circula no sangue varia durante o dia; ela aumenta logo depois que acordamos pela manhã, e vai diminuindo durante o passar do dia. Segundo a hipótese da fadiga adrenal, as pessoas doentes tem um aumento menor do hormônio pela manhã ou esse aumento só aparece no final do dia, o que explicaria porque essas pessoas ficam cansadas durante o dia, mas acordadas à noite. Quais dados científicos suportam essa hipótese? Aparentemente, nenhum.

Em 2016, uma dupla de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo publicou um trabalho de revisão, onde 58 artigos científicos foram analisados (CADEGIANI; KATER, 2016). Os cientistas buscaram evidências de relação entre os níveis de cortisol e os sintomas de cansaço. Apenas 23 % dos trabalhos conseguiram mostrar que, nas pessoas doentes, o nível de cortisol estava menor, 30 minutos depois do despertar pela manhã (os outros 77 % mostraram que o nível era igual ou até mesmo maior). Do mesmo modo, apenas 27 % dos estudos viram um aumento do hormônio à noite. Ou seja, mesmo que a tal fadiga adrenal exista, ela explica menos de 30 % dos casos de modo geral (guardem essa informação; isso vai ser importante mais para baixo).

Eu não estou dizendo que as pessoas que tem um cansaço persistente e não conseguem sair da cama são preguiçosas e sem vergonhas. Elas podem estar de fato doentes, mas não com fadiga adrenal. A Síndrome da Fadiga Crônica é uma doença reconhecida, porém as suas causas ainda são desconhecidas, mas com certeza são várias, e talvez a produção de cortisol possa ser uma delas (mas não a única). Uma origem auto-imune, quando as células de defesa do corpo começam a agir contra o próprio corpo, é a explicação com mais suporte científico (MORRIS; ANDERSON; MAES, 2017). Essa doença é definida por um cansaço persistente (por seis meses ou mais), que não é causado por exercícios e que não melhora com repouso.

Será que existe alguma relação entre a Síndrome da Fadiga Crônica e os níveis de cortisol? Será que a fadiga adrenal é a explicação? Também parece que não. Trabalhos científicos dos anos 2000 propuseram que a produção de cortisol estava envolvida no processo, mas não com um papel central (VAN DEN EEDE et al., 2007). E que talvez a falta do hormônio tivesse importância no estágio final da doença (CLEARE, 2004). Mas o consenso era que a relação cortisol/fadiga variava de pessoa para pessoa e que muitos outros fatores estavam envolvidos (CLEARE, 2003). De fato, assim como no trabalho brasileiro de 2016, um artigo em 2001 mostrou que apenas um terço dos estudos via redução dos níveis de cortisol em pessoas com Síndrome da Fadiga Crônica, e em apenas um terço dos pacientes (PARKER; S.; CLEARE, 2001). Um estudo mais recente mostrou que os níveis de cortisol no despertar podem sim estar mais baixos em pessoas com a Síndrome, mas ele foi incapaz de mostrar que as duas coisas estão de fato associadas (POWELL et al., 2013). A hipótese mais recente é que a Síndrome da Fadiga Crônica cause uma redução na taxa de cortisol, e não o contrário, e logo a redução do hormônio seria um sintoma da doença e não a causa (MORRIS; ANDERSON; MAES, 2017). Por isso, a simples medida dos seus níveis de cortisol, seja no sangue ou na saliva, de manhã, de tarde, de noite ou de madrugada, não pode ser usada como base para indicar fadiga adrenal ou Síndrome da Fadiga Crônica (ABDULLA; TORPY, 2017). E aí está o maior problema.

O sétimo médico do Dr. Kater, que falou para você que você tem fadiga adrenal, vai lhe receitar uma reposição hormonal e mandar você manipular hidrocortisona em uma farmácia de manipulação (ele vai falar que é hormônio bioidêntico, uma palavra bonita para não lhe assustar). Só que nenhum artigo científico mostrou que o uso de reposição hormonal tem um grande efeito benéfico sobre o cansaço; o efeito é no máximo limitado e não foi comprovada vantagem em fazer esse tipo de tratamento (ABDULLA; TORPY, 2017; SMITH et al., 2015; WHITING et al., 2001). O melhor tratamento é com base comportamental, como estimular o paciente a fazer exercícios e terapia psicológica (WHITING et al., 2001). Além disso, o uso errado dessa reposição hormonal (peguem a informação que eu pedi para vocês guardarem: mesmo que a fadiga adrenal existisse, ela só explicaria 30 % dos casos) tem graves efeitos negativos, como aumento da pressão, aumento do peso, aumento da glicose no sangue, alteração de humor e perda de massa dos ossos. Mesmo que a falta de cortisol fosse a causa da doença, a reposição hormonal não seria recomendada (PAPADOPOULOS; CLEARE, 2011). E, o uso prolongado pode acabar prejudicando as glândulas que produzem o cortisol e causar uma doença (que sim existe) grave: a insuficiência adrenal.

A insuficiência adrenal não é um nome mais científico para a fadiga adrenal; a insuficiência adrenal pode acontecer depois que a pessoa enfrenta situações extremas, como um acidente ou infecção severa. Ela sim é uma redução grande dos hormônios produzidos pelas glândulas adrenais, como o cortisol e a aldosterona. Os sintomas são muito piores que preguiça para levantar da cama; incluem dor forte na barriga, vômitos, fraqueza muscular, cansaço, depressão, pressão muito baixa, problemas nos rins, entre outros. Existe um risco sério de vida se não for tratada.

Ou seja, se só o sétimo médico descobre uma doença que não existe, estamos bem; seis médicos estão certos (ou, pelo menos, não estão errados).

Referências

ABDULLA, J.; TORPY, B. D. J. Chronic Fatigue Syndrome. In: Endotext.

CADEGIANI, F. A.; KATER, C. E. Adrenal fatigue does not exist: a systematic review. BMC Endocrine Disorders, v. 16, n. 1, p. 48, 2016.

CLEARE, A. J. The neuroendocrinology of chronic fatigue syndrome. Endocrine Reviews, v. 24, n. 2, p. 236–252, 2003.

CLEARE, A. J. The HPA axis and the genesis of chronic fatigue syndrome. Trends in Endocrinology and Metabolism, v. 15, n. 2, p. 55–59, 2004.

MORRIS, G.; ANDERSON, G.; MAES, M. Hypothalamic-Pituitary-Adrenal Hypofunction in Myalgic Encephalomyelitis (ME)/Chronic Fatigue Syndrome (CFS) as a Consequence of Activated Immune-Inflammatory and Oxidative and Nitrosative Pathways. Molecular Neurobiology, v. 54, p. 6806–6819, 2017.

PAPADOPOULOS, A. S.; CLEARE, A. J. Hypothalamic–pituitary–adrenal axis dysfunction in chronic fatigue syndrome. Nature Reviews Endocrinology, v. 8, n. 1, p. 22–32, 2011.

PARKER, A. J.; S., W.; CLEARE, A. J. The neuroendocrinology of chronic fatigue syndrome and fibromyalgia. Psychological Medicine, v. 31, n. 8, p. 1331–1345, 2001.

POWELL, D. J. H. et al. Unstimulated cortisol secretory activity in everyday life and its relationship with fatigue and chronic fatigue syndrome: A systematic review and subset meta-analysis. Psychoneuroendocrinology, v. 38, n. 11, p. 2405–2422, 2013.

SMITH, M. E. B. et al. Treatment of myalgic encephalomyelitis/chronic fatigue syndrome: A systematic review for a National Institutes of health pathways to prevention workshop. Annals of Internal Medicine, v. 162, n. 12, p. 841–850, 2015.

VAN DEN EEDE, F. et al. Hypothalamic-pituitary-adrenal axis function in chronic fatigue syndrome. Neuropsychobiology, v. 55, n. 2, p. 112–120, 2007.

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