segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A fosfoetanolamina é melhor que o leite de janaúba?


A fosfoetanolamina ainda está bombando na Internet e na mídia, que discutem, com pouco conehcimento técnico, se o composto funciona ou não contra o câncer. A pressão popular em diferentes esferas foi tão grande que o Governo Federal anunciou recentemente que vai disponibilizar R$ 10 milhões através do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para o estudo da fosfoetanolamina durante três anos. Dez milhões de reais é um bocado de dinheiro! Para vocês terem noção, faço a seguinte comparação: o maior edital de financiamento para pesquisas científicas da história do Brasil foi a criação dos chamados Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (ou INCTs). Grupos de pesquisa de todo o país se juntaram para escrever grandes projetos científicos, com centenas de páginas e em inglês, já que os projetos foram avaliados por julgadores de fora do Brasil, para garantir a idoneidade do processo. Dezenas de INCTs foram criados, cada um deles com centenas de pesquisadores nacionais e estrangeiros, mas muitos outros não tiveram seus projetos aprovados. O volume de recursos que será distribuído para cada um dos Institutos aprovados na próxima chamada será de no máximo R$ 10 milhões, por cinco anos. Ou seja, os estudos com fosfoetanolamina vão receber, sem concorrência, mais dinheiro que qualquer INCT. Ótimo, mas injusto!

Por que a fosfoetanolamina? Quantos outros compostos anticâncer estão sendo estudados no país, com recursos cada vez mais escassos? Quanto desse recurso poderia ser investido no já existente Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Controle do Câncer, com sede no INCA? Por que não disponibilizar então 1 % desse dinheiro (cem mil reais) para estudar a ação antitumoral do leite de janaúba? Me explico.

A janaúba ou janaguba (que atende pelo nome científico Himatanthus drasticus) é uma planta que ocorre no interior do Brasil e o seu látex (aquele leite branco que escorre da planta quando ela é cortada ou ferida) é usado como remédio natural. Em feiras no Nordeste, é possível encontrar garrafadas do leite de janaúba, uma mistura do látex da planta e água, que os barraqueiros indicam como tratamento natural para o câncer e outras doenças. Charlatanismo? Feitiçaria? Talvez não.

Grupos de pesquisa no Ceará já mostraram que um composto extraído do látex da janaúba tem ação anti-inflamatória em um modelo de estudo usando camundongos (LUCETTI et al., 2010). Em outro estudo, proteínas do látex da planta se mostraram capazes de inibir o crescimento de tumores quando injetadas em animais, provavelmente pelo seu efeito de estimular o sistema imune, responsável pela defesa do corpo. Porém, a janaúba não mostrou efeito quando ingerida ou quando testada em células de câncer em cultura (MOUSINHO et al., 2011). Então? A fosfoetanolamina é melhor que o leite de janaúba? Vale o investimento de 10 milhões de reais? Ou deveríamos dividir meio a meio; cinco milhões para a fosfoetanolamina e cinco milhões para janaúba?

Acho que deveria ser feito do jeito como sempre foi feito: o MCTI, através do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq), abre um edital de fomento à pesquisa para o estudo de novas moléculas antitumorais, com recursos de 10 milhões de reais. Os grupos de pesquisa da área escrevem seus projetos e os submetem a análise. Os melhores são escolhidos e financiados. Talvez a fosfoetanolamina não seja nossa melhor aposta; talvez ela só tenha o melhor marketing.

Referências:

LUCETTI, D. L. et al. Anti-inflammatory effects and possible mechanism of action of lupeol acetate isolated from Himatanthus drasticus (Mart.) Plumel. Journal of Inflammation, v. 7, n. 1, p. 60, 2010.

MOUSINHO, K. C. et al. Antitumor effect of laticifer proteins of Himatanthus drasticus (Mart.) Plumel - Apocynaceae. Journal of Ethnopharmacology, v. 137, n. 1, p. 421–426, 2011.

2 comentários:

  1. Seria, no mínimo, ingenuidade achar que o investimento se deve a mera pressão popular. Se 10 milhões serão investidos é porque existem fortes indícios de que a fosfoamina pode ser eficaz. Aliás, a própria pressão popular existe porque esses indícios são reais. Existem inúmeros relatos de controle da doença por meio da utilização dessa substância. Relatos tão contundentes que justificam o investimento. Vale lembrar também que não serão injetados 10 milhões de uma única vez. Caso a substância se mostre ineficaz as outras fases de testes não serão levadas adiante.

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    1. Assim como é ingenuidade achar que sem toda a pressão popular, o MCTI faria esse investimento por si só. E também é ingenuidade achar "relatos" populares de cura, sem qualquer acompanhamento científico, são provas da eficácia da fosfoetalomanina. Aposto que se formos ao Nordeste, também vamos encontrar relatos de cura com tratamento com leite de janaúba. A fosfoetanolamina é melhor que o leite de janaúba?

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