quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Bactérias e o DNA do mamute



Recentemente, um trabalho publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (ou PNAS para os íntimos) causou sensação na mídia e na Internet por descrever que bactérias eram capazes de absorver e usar DNA de um mamute (obviamente morto há muito tempo). Mas, em algum ponto, o objetivo desse importante trabalho com a participação de cientistas de diferentes países se perdeu nas notícias (ou os jornalistas só leram o resumo do trabalho...). O mamute é um detalhe e, em minha opinião, é até um experimento falho no trabalho. Mas bem, vamos ao que os pesquisadores estudaram.

Moléculas de DNA estão presentes em qualquer ambiente natural que você olhar. Elas são liberadas das células durante a decomposição natural da matéria orgânica morta. E podem ficar milhares de anos soltas por aí. Mas não inteiras. O DNA fora das células sofre diversos danos, tanto químicos quanto físicos, é fragmentado e tem a sua sequência original modificada (ou seja, sofre mutações). Consequentemente, os pedaços de DNA no ambiente têm em torno de 100 pares de bases (uma sequência de 100 A, T, C e G; como cada molécula de DNA tem duas fitas ou seja, duas cadeias dessas “letras” que se complementam, cada letra é chamada de par de bases; é assim que o tamanho de um DNA é medido). Quanto é isso? Para comparação, o tamanho médio dos genes humanos é de 3.000 pares de bases (mas o maior, o gene da distrofina, tem 2,5 milhões de pares de base!). Já se sabia que as bactérias são capazes de pegar DNA grandes do ambiente, mas não se elas conseguiriam usar DNA fragmentado e modificado que fica disponível naturalmente.

As bactérias estudadas foram capazes de incorporar ao seu próprio genoma sequências muito pequenas, de até 20 pares de bases. Além disso, os cientistas forçaram danos nesse DNA, usando regentes químicos. Mas ainda assim as bactérias foram capazes de usar esse DNA, mesmo meio baleado. Depois, estudando no computador os genomas de bactérias já sequenciados, os pesquisadores encontraram indícios de que a presença de pequenas modificações no genoma é mais frequente nas bactérias que conseguem capturar DNA do ambiente quando comparadas com as que não têm essa capacidade. Isso mostra que o que foi visto dentro do laboratório pode ter ocorrido durante o processo de evolução e ainda pode está acontecendo mundo afora.

Esse estudo aponta para um cenário bem interessante, tanto na questão evolutiva quanto em relação à saúde. Primeiro, esse processo deve ter sido importantíssimo durante os primeiros passos da vida no planeta, ajudando a causar rápidas modificações nos genes dos micróbios primitivos, aumentando a diversidade e acelerando a evolução. Além disso, os modelos de computador que tentam prever a evolução molecular e a genética de populações (ou seja, como os genes vão se distribuindo em grupos de seres vivos com o passar das gerações) não levam em conta esse processo e podem ser imprecisos. Com mais estudos, esse novo meio de aquisição de DNA poderá ser incluído nesses programas e os tornar mais eficientes. Em relação à saúde, dezenas de milhares de toneladas (sim, TONELADAS) de DNA são liberadas apenas nos rios do mundo. E apenas duas modificações genéticas seguidas podem aumentar a resistência a antibióticos em uma bactéria que causa doença. Assustador, não? O impacto da exposição de bactérias à DNA fragmentado em ambientes hospitalares, por exemplo, precisa ser estudado.

Mas não esqueci o mamute! Só deixei para o final, mas não por ser mais importante. Para tentar mostrar que as bactérias são capazes que pegar um DNA naturalmente fragmentado e modificado, os cientistas pegaram um grande osso de mamute que estava dando sopa por lá e purificaram o DNA presente. Colocaram esse DNA junto com as bactérias e conseguiram uma bactéria diferente. Apenas uma! Isso é muito pouco nesse tipo de experimento, logo, me parece muito pouco convincente! Os outros experimentos já mostram muito bem que as bactérias aproveitam o DNA detonado do meio, mas tentar me empurrar uma (apenas uma!) bactéria transformada com DNA de osso de mamute me cheira a publicidade e não a rigor científico!

Mas isso não diminui a importância do trabalho publicado, de modo algum. Mostra apenas que tem gente escrevendo (ou copiando) na Internet sem ler e divulgando patavinas por aí. #estamosdeolho

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