terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Dopping cerebral: pode alguma pílula aumentar a memória, concentração, aprendizado, e te deixar manjando dos paranauês?



Há algum tempo, o David, pessoa física, foi marcado na figura abaixo no Facebook junto com a pergunta: “Será que funciona?”. Minha resposta: não sei... Na verdade, já tinha ouvido falar de uns boatos sobre os efeitos de um de remédios, a Ritalina (nome fantasia do metilfenidato), sobre a concentração e foco, mas nunca tinha estudado nada sério sobre o assunto. Então resolvi ir à fonte...

E aí? Será que é verdade? (Fonte: Facebook)

Fiz algumas pesquisas no portal do Pubmed, organizado e mantido pelo governo americano e que contém quase tudo que é publicado pelos cientistas do mundo na área médica. E existe muita coisa descrita sobre isso. As buscas correlacionando os nomes dos remédios com seus possíveis efeitos extras mostrados no esquema acima dão um total de mais de 6 mil trabalhos publicados. Se a pesquisa é feita procurando efeitos colaterais das drogas, temos quase 2 mil trabalhos. É muita coisa para ser lida e estudada. Desse modo, nessa postagem, vou me concentrar em tentar descobrir se o Adderall e a Ritalina realmente são capazes de melhorar a concentração de uma pessoa saudável. Depois, podemos voltar aos supostos estimulantes de aprendizado e memória.

Mas, antes de qualquer coisa, pelo amor de Darwin, eu não sou médico e isso aqui não é um receituário! Qualquer coisa que estiver escrita não significa que eu estou dizendo que é ou não seguro tomar qualquer coisa. A automedicação é muito perigosa e você só deve tomar qualquer remédio com aconselhamento médico, e não de um amigo (ou blogueiro...). Mas bem...

Tanto o Adderall quanto a Ritalina são usados para o tratamento de pessoas com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, síndrome que tem como sintomas hiperatividade (obviamente...), impulsividade e, principalmente, desatenção. Pensando de forma direta, se esses remédios são usados para combater desatenção, é possível que eles aumentem a concentração de uma pessoa saudável. Parece lógico, mas nem sempre funciona assim. Por exemplo, o uso de lítio, que é usado no tratamento do transtorno bipolar, não vai manter o humor de um indivíduo não doente mais estável.

Como eles funcionam? O Adderall é uma mistura de anfetaminas e age como a cocaína, aumentando liberação de neurotransmissores (substâncias usadas para a comunicação entre os neurônios) no cérebro. (Eu escrevi recentemente sobre um deles, a dopamina.) Já a Ritalina impede que as células do cérebro reabsorvam esses neurotransmissores. Dessa forma, ambos os compostos agem aumentando a quantidade de neurotransmissores no cérebro.

Em testes com ratos, tanto Adderall quanto a Ritalina induzem sintomas de vício, o que indica que os dois remédios podem ser viciantes em humanos, como a cocaína (de novo...). Dessa forma, a venda de Adderall é proibida no Brasil enquanto a Ritalina só é vendida com prescrição médica e com retenção da receita (a famosa tarja preta). Além do efeito viciante, esses remédios trazem junto uma longa lista de efeitos colaterais que incluem problemas cardíacos, convulsões, psicose, ansiedade, nervosismo, dor de cabeça, tonteira e insônia. Já não parece bom, certo?

Mas, então, diz logo: funciona ou não funciona? Parece que não. Ainda existem poucos estudos avaliando os efeitos do Adderall e da Ritalina sobre a capacidade cognitiva (ou seja, concentração, memória, etc...) em pessoas saudáveis, mas os resultados até o momento indicam que essas drogas não ajudam ou têm efeito muito pequeno.

Um estudo recente não conseguiu ver nenhuma diferença entre um grupo que tomou Adderall e outro que tomou pílula de farinha (ou placebo) quando comparados em 12 diferentes testes cognitivos. Outro mostrou um efeito interessante: quando o indivíduo testado tinha um nível cognitivo baixo normalmente, o Adderall era capaz de melhorar a nota no teste; mas se a nota inicial era alta, o remédio tinha um efeito prejudicial. Ou seja, não parece ajudar muito.

Já a Ritalina se sai um pouco melhor: existe alguma melhora na capacidade de memória das pessoas que foram testadas sob efeito da droga. Porém, quando os cientistas deram uma alta dosagem de Ritalina (como algumas pessoas usam quando não receitadas por um médico) a ratos no laboratório, eles observaram uma redução na capacidade cognitiva dos animais. Mas o mais impressionante é o efeito da Ritalina mesmo quando ela não está presente: quanto os pesquisadores deram a voluntários pílulas falsas dizendo que era Ritalina, as pessoas falaram que estavam mais atentas e concentradas, embora os resultados dos testes cognitivos mostrassem que elas estavam tão atentas e concentradas quanto antes de serem enganadas – o clássico efeito placebo! Isso talvez explique porque as pessoas insistem em tomar esse remédio e indicar para amigos, mesmo sem efeitos claros: literalmente não passa de coisas na cabeça delas!

E então? Vale a pena? Em minha opinião, claro que não! Prefiro ficar com o meu expresso duplo que tem tanto efeito quanto... 

8 comentários:

  1. Muito boa a publicação. Poderiam colocar algumas referências para curiosidades futuras?

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    1. Como eu quis fazer uma busca direta nos trabalhos científicos para pegar os dados originais, sem correr o risco de pegar alguma coisa com menos credibilidade, todas as minha fontes foram artigos em inglês. Mas posso deixar aqui o link para o trabalho publicado que fez uma análise geral sobre a Ritalina:
      Repantis D, Schlattmann P, Laisney O, Heuser I (2010) Modafinil and methylphenidate for neuroenhancement in healthy individuals: A systematic review. Pharmacol Res 62: 187-206. (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1043661810000927)
      Esses também são legais:
      - Greely H, Sahakian B, Harris J, Kessler RC, Gazzaniga M, et al. (2008) Towards responsible use of cognitive-enhancing drugs by the healthy. Nature 456: 702-705.
      (http://www.nature.com/nature/journal/v456/n7223/full/456702a.html)
      - Hyman SE (2011) Cognitive enhancement: promises and perils. Neuron 69: 595-598.
      (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0896627311001097)
      P.S.: Uma busca por "doping cerebral" gera vários hits em português, mas não li, então não posso garantir qualidade...

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  2. Junior aqui, muito bom meu caro.
    ja havia buscado informações ppr minha conta também, nao tão profundas, mas cheguei a mesma conclusão, no entanto não desmerece o fato de eu. pelo bem da ciência, ter utilizado duas vezes a ritalina. e nao tenho déficit de atenção, ou baixa concentração, nem tao pouco baixa cogniçao.
    devo salientar também, que fiz este teste em duas provas de calculo3 e fisica 3 .
    Tive ápice de concentração, irritabilidade, olha . fez seu papel. mas afirmo. se for para fazer algo especifico. se for fazer multitarefas... esqueça. o bloqueio para concentração foi tanto. o foco atrapalhava o pensamento em outros focos.
    assim me senti. fui minha cobaia por curiosidade, nao aconselho a ninguém isto. remédio controlado somente por indicação médica .

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    1. Não sei... Pelo que eu vi, tem muito efeito placebo nessa história. Achei no mínimo curioso o fato dos voluntários se acharem muito mais concentrados depois de tomar um pílula falsa com rótulo de Ritalina (e, obviamente, não terem melhora cognitiva alguma). Esse resultado é bem interessante...

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    2. Oi David, parabéns pelo blog e pelo texto. Muito interessante essa discussão. Tb tinha meus receios com a Ritalina por tudo que é publicado sobre ela e sobre o próprio TDAH que ainda é mt questionado. Mas a minha experiência com ela é excelente. Minha filha faz uso por indicação médica e realmente fez muita diferença. Pode ser que não funcione ou não apresente grandes resultados em quem não temindicação, mas com um portador de TDAH faz sim. E melhor ainda é o fato dela até hj (quase dois anos de uso contínuo) não ter apresentado nenhum efeito colateral ou sinais de dependência. Bjs

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    3. Não se tem dúvidas de que a Ritalina funciona em portadores de TDAH. Esses estudos são em pessoas consideradas sadias. Mas uma coisa que ainda é muito discutida na literatura, pelo que eu vi, é definir quem tem ou não TDAH. Não é um doença infecciosa, como uma gripe, que você tem ou não tem. É uma linha contínua de graus de sintomas mais graves ou mais brando. É como colesterol alto: quem definiu que o limite é 200 mg/dL? Por que não 210 mg/dL? Ou 190 mg/dL? Com a TDAH é a mesma coisa: por que o nível é X, e não X+1 ou X-1? A discussão para isso ainda vai ser longa...

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    4. rsrsrsrs. É verdade. É um transtorno mental e não possui nenhum marcador biológico que facilite o diagnóstico. Dizem que tem uma alta carga genética ,mas para definir uma pessoa com TDAH é necessário uma série de testes psicoemocionais, coleta criteriosa da história familiar e escolar da criança, exame neurológico e um profissional experiente que possa fazer o diagnóstico. Eu ainda "recomendo" uma segunda opinião e mesmo assim sempre fica a dúvida se é isso mesmo, rsrsrsr.

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    5. Estão saindo vários estudos sobre a origem do TDAH. Em breve, teremos uma postagem sobre um gene que pode ajudar a compreender melhor a doença...

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