O adoçante aspartame está presente em mais de 6 mil produtos ao redor do mundo, como refrigerantes diet, gomas de mascar e iogurtes, sendo visto por muitos como uma alternativa mais saudável ao açúcar (ANVISA, 2023). No entanto, pesquisas recentes sugerem que ele pode não ser tão isento de riscos quanto se pensava (Debras e cols., 2023). Um estudo publicado em fevereiro deste ano na revista Cell Metabolism associa o consumo de aspartame ao desenvolvimento de aterosclerose, que é o entupimento dos vasos sanguíneos pela gordura presente no sangue (Wu e cols., 2025).
O aspartame foi descoberto em 1965 pelo pesquisador James M. Schlatter, de forma acidental, enquanto trabalhava no desenvolvimento de medicamentos para o tratamento de úlceras gástricas (Zolin, 2023). Com um poder adoçante cerca de 200 vezes maior que o do açúcar e sem calorias, o aspartame rapidamente se popularizou na indústria alimentícia e é amplamente consumido em todo o mundo até os dias atuais (Zolin, 2023).
Embora seja considerado um aditivo alimentar seguro, estudos recentes associam seu consumo a um risco aumentado de doenças do coração (Wu e cols., 2023). O estudo publicado em fevereiro do ano passado soma-se a outros nesse sentido, mostrando que o consumo desse adoçante pode estar associado à ocorrência de aterosclerose (Wu e cols., 2023). Essa condição se inicia em locais específicos das artérias, onde o fluxo de sangue é turbulento, como bifurcações e curvas (Feher e Howlett, 2026). Nesses locais, o estresse na parede dos vasos é maior, o que facilita a deposição de colesterol, principalmente o LDL (Feher e Howlett, 2026). Partículas de LDL acumuladas nesses locais desencadeiam uma reação inflamatória, que resulta na formação de placas gordurosas. Essas placas, também conhecidas como placas de ateroma, por sua vez, reduzem a elasticidade dos vasos e os estreitam, alterando ou até mesmo interrompendo o fluxo de sangue e elevando o risco de complicações graves, como ataques cardíacos e AVC (o famoso derrame) (Feher e Howlett, 2026).
Os cientistas usaram camundongos geneticamente modificados com maior predisposição a formar placas de ateroma. Esses animais foram alimentados com diferentes doses de aspartame por 12 semanas (Wu e cols., 2025). Ao final desse tempo, os animais alimentados com aspartame apresentaram maior número de placas de ateroma do que os animais controle, que não receberam o adoçante. Durante o estudo, os animais expostos ao aspartame apresentaram um aumento significativo dos níveis de insulina circulantes, com um pico acentuado logo após a administração do adoçante (Wu e cols., 2025). Esse pico foi acompanhado de maior acúmulo de gordura nas paredes arteriais, o que contribuiu para a formação de placas (Wu e cols., 2025).
Mas como ocorre esse processo?
O aumento da insulina ocorre porque o aspartame se liga a receptores em células do intestino, que enviam sinais para o cérebro por meio do nervo vago, um nervo que liga regiões do cérebro a diferentes órgãos internos, incluindo o intestino. O cérebro, ao receber esses sinais, estimula a liberação de insulina no sangue (Wu e cols., 2025)
Em seguida, os pesquisadores descobriram que o excesso de insulina estimula as células endoteliais (que revestem os vasos sanguíneos) a produzir uma proteína chamada CX3CL1. Essa proteína atrai células inflamatórias para a parede desses vasos (Wu e cols., 2025). Essas células também têm a capacidade de absorver gordura e, quando se acumulam, podem agravar a formação de placas (Wu e cols., 2025).
Quais as implicações práticas?
A quantidade de aspartame administrada aos animais neste estudo, embora esteja dentro do que a OMS recomenda como seguro (até 40 mg/kg por dia), ainda é bastante elevada. Para um indivíduo de 70 quilos, a quantidade de aspartame utilizada no estudo equivale mais ou menos à ingestão de cerca de 25 latinhas de Coca-Cola Zero por dia (Faria, 2023).
Por outro lado, o efeito prejudicial do consumo de aspartame por camundongos foi observado em apenas 12 semanas. Assim, lembrando que o aspartame não está presente apenas em refrigerantes e considerando que nosso consumo de aspartame se dá ao longo de anos, é possível que um efeito semelhante ocorra em pessoas que consomem quantidades pequenas, mas ao longo de um período bastante longo.
Por serem preliminares e realizados em animais, os resultados deste estudo precisam ser confirmados em seres humanos. No entanto, eles nos convidam a repensar o uso diário de aspartame (e talvez outros adoçantes), sugerindo a adoção de um consumo mais consciente, restrito e saudável de produtos adoçados artificialmente.
Bibliografia
ANVISA. OMS divulga resultados da avaliação de perigo e risco do aspartame. 14 de Julho de 2025.
Debras, C., Deschasaux-Tanguy, M., Chazelas, E., Sellem, L., Druesne-Pecollo, N., Esseddik, Y., de Edelenyi, F. S., Agaësse, C., de Sa, A., Lutchia, R., Julia, C., Kesse-Guyot, E., Alles, B., Galan, P., Hercberg, S., Huybrechts, I., Cosson, E., Tatulashvili, S., Srour, B., & Touvier, M. (2023). Artificial Sweeteners and Risk of Type 2 Diabetes in the Prospective NutriNet-Santé Cohort. Diabetes Care, 46(9), 1681–1690. https://doi.org/10.2337/DC23-0206
Faria, M. Quanto de aspartame tem na Coca-Cola? Veja se a quantidade é prejudicial à saúde. In. Valor Econômico. 30 de Junho de 2023.
Wu, W., Sui, W., Chen, S., Guo, Z., Jing, X., Wang, X., Wang, Q., Yu, X., Xiong, W., Ji, J., Yang, L., Zhang, Y., Jiang, W., Yu, G., Liu, S., Tao, W., Zhao, C., Zhang, Y., Chen, Y., … Cao, Y. (2025). Sweetener aspartame aggravates atherosclerosis through insulin-triggered inflammation. Cell Metabolism, 37(5), 1075-1088.e7. https://doi.org/10.1016/J.CMET.2025.01.006
Zolin, B. Aspartame é cancerígeno?. In: Drauzio. 27 de Julho de 2023

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