Imagine retirar algumas células de defesa do organismo, ensiná-las a reconhecer o câncer e depois devolvê-las ao paciente para que elas próprias combatam a doença. Essa é a ideia por trás das células CAR-T, uma tecnologia reconhecida como um “medicamento vivo”. A terapia utiliza um tipo de célula de defesa do corpo, as células T, modificando-as em laboratório e devolvendo ao corpo do paciente para que consigam reconhecer e atacar as células tumorais de maneira efetiva. Os resultados mais impactantes até o momento foram observados principalmente tipos de cânceres hematológicos, especialmente em pacientes que já não respondiam aos tratamentos convencionais. Por isso, a tecnologia CAR-T representa uma estratégia importante: frequentemente as células de defesa do organismo passam a favorecer a progressão do câncer, dificultando a resolução da doença.
Apesar de parecer uma tecnologia recente, sua história começou há algumas décadas. Em 1987, o pesquisador japonês Yoshikazu Kuwana e sua equipe descobriram que era possível modificar as células T e gerar uma resposta de defesa efetiva em experimentos laboratoriais. O grande desafio seguinte era transformar essa ideia em uma terapia que realmente funcionasse dentro do organismo. Após alguns anos que alguns pesquisadores refinaram essa tecnologia, o pesquisador Carl June e sua equipe, da Universidade da Pensilvânia, passaram a ter destaque. Em 2011, um estudo liderado por June mostrou resultados surpreendentes em pessoas com leucemia linfoide crônica que já não respondiam aos tratamentos disponíveis. Três de seus pacientes alcançaram remissão completa ou parcial após receberem terapia com células CAR-T.
Em 2017, a primeira terapia com células CAR-T foi aprovada pelo FDA, o tisagenlecleucel, para o tratamento de leucemia linfoblástica aguda pediátrica e em adultos jovens. Essa história também chegou ao Brasil. Em 2019, pesquisadores do Centro de Terapia Celular do Hemocentro de Ribeirão Preto, ligado à USP, realizaram uma das primeiras aplicações de CAR-T da América Latina em um paciente com linfoma avançado. O paciente apresentou uma rápida redução da doença, e o caso tornou-se um marco. Além do tratamento, pesquisadores como Virgínia Picanço-Castro e Dimas Covas participaram do desenvolvimento de uma plataforma brasileira para produzir e multiplicar essas células. Em 2022, a Anvisa aprovou os primeiros registros de terapias gênicas com células CAR-T no Brasil para o tratamento de tipos avançados de câncer.
A trajetória das CAR-T envolve, portanto, pesquisadores de diferentes países e décadas de descobertas. Ainda assim, quando se discute um possível reconhecimento pelo Prêmio Nobel de Medicina, Carl June aparece como um dos principais nomes associados à consolidação da tecnologia, pois seu trabalho foi fundamental para demonstrar que o uso dessa estratégia na clínica pode ser promissor. Além de ter liderado o tratamento de Emily Whitehead, a primeira paciente pediátrica com um tipo de leucemia a receber terapia com células CAR-T. Ela desenvolveu efeitos colaterais da terapia, mas que foram contornados pela equipe e permanece livre da doença. Apesar dos resultados, a CAR-T ainda apresenta limitações importantes. A produção é complexa por ser individualizada e o custo elevado, e alguns pacientes podem desenvolver efeitos adversos graves, como a síndrome de liberação de citocinas e neurotoxicidade. Além disso, os resultados são mais consistentes em tipos específicos de câncer em contrapartida aos tumores sólidos, que apresentam maior complexidade.
As células CAR-T representam mais do que um novo recurso terapêutico: é uma abordagem que busca recuperar a atividade de defesa do próprio corpo que é manipulada em favor à progressão do tumor. Esse avanço necessitou de anos de pesquisa básica, desenvolvimento biotecnológico e ensaios clínicos, e ilustra o percurso entre uma descoberta científica e sua aplicação na prática médica. Superados os desafios de custo, segurança e aplicação em tumores sólidos, essa estratégia poderá ampliar as opções de tratamento oncológicos. Devido ao impacto das pesquisas desenvolvidas por Carl June e seu reconhecimento em prêmios internacionais, ele é meu candidato ao Prêmio Nobel em Medicina.
Referências
Esse texto foi escrito por Camila Pantoja Marinho, aluna de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Biociências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como parte da avaliação da disciplina "Prêmios Nobel em Biociências", coordenada pelo professor David Majerowicz.

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