Durante décadas, uma pequena proteína representou um dos maiores desafios da pesquisa contra o câncer, a família RAS, da qual fazem parte KRAS, NRAS e HRAS. Mutações oncogênicas em RAS estão presentes em mais de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático, sendo as alterações em KRAS as mais frequentes. Essas mutações favorecem a ativação contínua de sinais que estimulam o crescimento e a sobrevivência das células tumorais (JIANG et al., 2024; O’REILLY et al., 2026). Dessa forma, o questionamento era relativamente simples: se essa proteína é tão importante para o tumor, por que não criar um medicamento capaz de bloqueá-la? Na prática, essa pergunta levou décadas para ser respondida. Por muito tempo, RAS foi considerada praticamente impossível de atingir com medicamentos. Sua estrutura dificultava a ligação das moléculas utilizadas como fármacos, fazendo com que cientistas chegassem a classificá-la como um alvo impossível de ser tratado com medicamentos (JIANG et al., 2024).
O câncer de pâncreas está entre os tumores mais agressivos. Um dos principais motivos é que ele costuma crescer silenciosamente. Quando aparecem sintomas mais evidentes, a doença muitas vezes já se encontra avançada ou em metástase. Além disso, sua própria biologia dificulta a ação dos tratamentos. Por isso, mesmo com avanços em cirurgia e quimioterapia, o prognóstico continua sendo desfavorável para muitos pacientes. Foi nesse cenário que surgiu um avanço importante: o medicamento daraxonrasib (RMC-6236), cujo mecanismo de ação interfere diretamente na atividade de proteínas RAS alteradas (WOLPIN et al., 2026; O’REILLY et al., 2026).
O avanço dessa descoberta está diretamente relacionado à maneira inovadora encontrada pelos pesquisadores para bloquear a proteína RAS. Em condições normais, RAS funciona como um verdadeiro interruptor molecular, alternando entre os estados ativo e inativo para controlar sinais relacionados ao crescimento celular. Entretanto, determinadas mutações podem manter esse sistema excessivamente ativo, favorecendo a transmissão contínua de sinais de proliferação e contribuindo para o desenvolvimento e a progressão do câncer (JIANG et al., 2024).
Durante décadas, bloquear diretamente RAS foi um grande desafio. Isso ocorre porque a proteína apresenta uma superfície relativamente lisa, com poucas regiões nas quais pequenas moléculas utilizadas como medicamentos consigam se encaixar de maneira eficiente. A solução encontrada pelos pesquisadores foi: em vez de depender apenas de uma ligação direta à RAS, o daraxonrasib recruta a ciclofilina A, uma proteína naturalmente presente nas células, utilizando-a como uma espécie de parceira molecular (CREGG et al., 2025). Ao se ligar à ciclofilina A, o medicamento forma um complexo capaz de reconhecer a RAS em seu estado ativo. Esse conjunto cria uma nova superfície de interação e impede que a RAS ativa se comunique adequadamente com as proteínas responsáveis por transmitir seus sinais de crescimento para o restante da célula. Assim, o daraxonrasib não precisa simplesmente “desligar o interruptor”. Em vez disso, interrompe a comunicação do sinal enquanto a RAS ainda está ativa. Dessa forma, uma proteína que durante décadas foi considerada praticamente inalcançável por medicamentos tornou-se um alvo terapêutico possível (JIANG et al., 2024; CREGG et al., 2025).
Portanto, a importância desse avanço vai muito além da descoberta de um novo medicamento contra o câncer de pâncreas. Seu verdadeiro impacto está na inovação científica que tornou possível atingir um dos alvos mais desafiadores da oncologia a partir de uma estratégia capaz de recrutar uma terceira proteína e, a partir dela, criar uma nova superfície molecular que permite bloquear a atividade de RAS. Assim, essa descoberta rompe uma barreira que durante décadas pareceu intransponível e inaugura uma nova maneira de pensar o desenvolvimento de medicamentos contra alvos considerados inacessíveis.
Referências
Esse texto foi escrito por Giovanna Arêas de Sá Mendes, aluna de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Biociências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como parte da avaliação da disciplina "Prêmios Nobel em Biociências", coordenada pelo professor David Majerowicz.

Comentários
Postar um comentário